Manifestações de 7 de setembro: o que os agentes de mercado esperam em meio a atos a favor e contra o governo?

SÃO PAULO – O feriado de 7 de setembro promete ser movimentado na política, com manifestações marcadas tanto a favor como contra o governo. Em São Paulo (SP), por exemplo, os atos pró-Bolsonaro, que devem defender pautas como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), serão realizados na Avenida Paulista, ao passo que os defensores do impedimento do presidente Jair Bolsonaro se reunirão no Vale do Anhangabaú.

Nesta sexta-feira (3), Bolsonaro colocou mais lenha na fogueira desse ambiente das ruas ao afirmar que os atos serão ultimato para “duas pessoas que usam o poder para dar outro rumo ao país”, sem citar nomes, mas presumivelmente referindo-se aos ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, do STF.

“Não criticamos instituições ou poderes, somos pontuais. Não podemos admitir que uma ou duas pessoas, utilizando da força do poder, queiram dar outro rumo para nosso país. Essas duas pessoas têm que entender seu lugar. E o recado do povo nas ruas, no próximo dia 7, será um ultimato para essas pessoas. Curvem-se à Constituição, respeitem nossa liberdade, entendam que vocês dois estão no caminho errado”, defendeu o presidente.

É no meio desse clima que investidores entraram no feriado, alguns tendo zerado posições já na sexta-feira (3) uma vez que o feriado de Dia do Trabalho nos Estados Unidos deve tirar liquidez da B3 nesta segunda-feira (6). Amanhã, a Bolsa estará fechada por aqui.

Um dos principais questionamentos que surge nas mesas de negociação é: como os protestos desta terça podem impactar o mercado financeiro.

Segundo Felipe Ferreira, diretor da ComDinheiro, o principal marco de um movimento como esse não é a repercussão natural e restrita do ato, mas as consequências que eles podem ter. “Quando os manifestantes pró-governo se apontam contra outras instâncias de poder isso traz uma inquietude, o que leva a maior percepção de risco, assim como as manifestações contra o governo levam a questionamentos quanto à capacidade de exercício de poder do Executivo”, avalia.

Para ele, as manifestações simbolizam um problema na sinalização de risco e o ideal para o ambiente de negócios seria um dia 7 com manifestações pacíficas e sem muito alarde. “Mesmo que falem muito, se tiver pouca repercussão isso não impactará no mercado. Mas, se um ou outro lado mostrar muita força podemos caminhar para um modelo de instabilidade, com ações de todos os setores caindo ao mesmo tempo”, explica.

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De acordo com Alex Agostini, economista da Austin Ratings, o que se está vendo é muito mais uma manifestação estimulada por partidos políticos e menos uma mobilização social. “Fica difícil mensurar o impacto disso, o que temos visto é que todas as questões ultimamente têm sido muito politizadas e polarizadas”, defende.

Agostini entende que as manifestações desta terça são bem menos previsíveis do que aquelas que ocorreram antes do impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando o país estava sofrendo uma grave crise econômica e a pressão popular acabou tendo impactos no Congresso.

“Aquela foi uma mobilização nacional, mais forte, diferente dessa situação de agora. Se fosse uma mobilização espontânea da sociedade e não algo tão patrocinado por partidos e figuras políticas eu creio que talvez conseguíssemos ter uma análise mais forte de impacto nas decisões do Legislativo e do Judiciário”, avalia.

Já Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, entende que a consequência mais grave que poderia advir dos protestos seria uma greve dos caminhoneiros, pois isso poderia causar um impacto à economia similar ao registrado em 2018, só que em um momento no qual o país não pode se dar ao luxo de frear a recuperação pós-pandemia.

Ela lembra que a queda de 0,1% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre já foi um sinal negativo neste sentido.

Por outro lado, Simone duvida que ocorra uma adesão em massa de militares e policiais aos protestos, com risco real de ruptura institucional. “O que acontece é mais uma antecipação das eleições de 2022. Sabemos que o ano que vem será muito duro, muito difícil, e crescer 2% em 2022 já será muito bom”, argumenta.

Na opinião dela, independente do que ocorrer no feriado, a tensão entre poderes já cobrou seu impacto na Bolsa. “O investidor estrangeiro já percebeu que o Brasil é para os fortes. Se a democracia resistir apesar da polarização está tudo bem. Se as instituições forem abaladas, isso vai ter um impacto relevante nas expectativas do mercado.”

Assim como Ferreira, Simone também acredita que o melhor para a estabilidade do cenário e para uma manutenção de um ambiente de negócios positivo seria um protesto pacífico e sem grandes traumas. “O que eu sinto é que todos estão apreensivos, porém manifestações sem grandes traumas não vão impactar o mercado”, conclui.

Não obstante o desejo de pacificação dos economistas, em relatório, a equipe de análise da XP Política expressa que após duas derrotas recentes na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do voto impresso e no pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes, Bolsonaro pode usar os atos como novo ponto de distensão e aumentar a crise entre Executivo e Judiciário.

“As manifestações ainda poderão medir o tamanho do apoio ao governo federal e, em um ‘discurso mais amplo’ – como prometeu fazer em São Paulo -, é possível que o presidente também suba o tom com relação a ministros do Supremo, Rodrigo Pacheco, senadores da CPI da Pandemia e outros atores políticos, contribuindo para manter o ambiente conturbado entre os poderes”, escrevem os analistas da XP.

Márcio Fernandes, analista de política da Ohmresearch, escreveu em relatório que o foco mais grave de tensão segue entre os militares dos estados. “há focos de tensão e de potencial sublevação nas forças dos estados. Mas não há sinais de coordenação nacional. Por isso, serão lançados vários “balões de ensaio” pró-tensionamento (ainda que setores que apoiam o governo não tenham ideia clara quanto ao grau de resposta que receberão dos manifestantes ou dos quartéis).”

Fernandes entende que o que se espera de consequência imediata dos atos é um acirramento maior do ambiente, mas que a interpretação dos mais radicais apoiadores do governo, de que os militares dos estados e as Forças Armadas se juntarão em um desafio ao Legislativo e ao Judiciário é “antes um desejo que um fato”.

O analista aponta ainda que a oposição também deseja algum grau de conflito para poder culpar o Planalto por qualquer incidente de violência.

“Nestes setores, a interpretação é a de que o governo está sangrando muito rapidamente (com intensificação das crises hídrica, econômica e política) e isso lhe tiraria força política para liderar qualquer movimento de maior fôlego. Por outro lado, a visão de certos agentes externos de destaque (tal como emissários do Governo Biden dos Estados Unidos) sobre o cenário de adesão ao bolsonarismo nas Forças Armadas subvaloriza os núcleos de maior radicalização na caserna”, analisa.

Fernandes sintetiza o cenário como sendo de muito acirramento no combate entre as forças políticas, mas com pouca coordenação de qualquer um dos lados para poder levar as jornadas do dia 7 de setembro a um resultado prático.

“Em ambientes com tal nível de conflagração, a ausência de desestabilizações é possível desde que não sejam acesos determinados estopins. No entanto, os erros de cálculo, as decisões impulsivas e os tensionamentos desproporcionais poderão acionar gatilhos capazes de iniciar cadeias de reação com potencial capacidade de fugir ao controle e elevar a crise a níveis inesperados e desestabilizadores”, alerta.

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