É preciso sair do isolamento

O presidente da Central Aurora Alimentos, Neivor Canton, aponta os desafios do cooperativismo de base rural para ganhar escala

Dos tempos em que era um modesto agricultor em Ipumirim (SC) até hoje, Neivor Canton viu muitas transformações no campo. Ainda muito jovem, ele mesmo não via perspectivas como herdeiro, entre seis irmãos, de uma pequena propriedade da família, e foi trabalhar em um escritório de contabilidade na cidade. Fez carreira política já a partir dos 21 anos, alternou cargos de vice-prefeito e prefeito ao longo de 12 anos e só então acabaria ingressando, 33 anos atrás, em um movimento do qual não mais se afastaria – o cooperativismo. No começo, compara, “o que havia era uma agricultura artesanal, pouco mecanizada, quase nada perto do que há hoje”. 

O hoje de Neivor Canton é o posto de presidente de uma superpotência agroindustrial, a Cooperativa Central Aurora Alimentos, um sistema que congrega onze cooperativas com mais de 50 mil funcionários e faturamento estimado para 2021 em R$ 19 bilhões. A base de números tão robustos é uma rede de quase 68 mil produtores rurais individualmente modestos, como Neivor foi um dia, mas que em conjunto movimentam uma cadeia industrial de 17 frigoríficos e uma fábrica de lácteos, entre outras atividades. “As pequenas propriedades deixaram de ser meras produtoras de grãos em pequena escala”, diz Neivor. “Eu assisti toda esta transformação acontecer.”

O que mudou no retrato do cooperativismo voltado ao agronegócio desde que você ingressou no sistema, em 1988?
Quando começamos nossa trajetória lá no final dos anos 80, o que havia era uma agricultura artesanal, pouco mecanizada, quase nada perto do que há hoje. E veio a tecnologia, e ela foi definindo como cada tipo de propriedade rural poderia aderir a novas práticas. As pequenas propriedades rurais deixaram de ser meras produtoras de grãos em pequena escala porque aquele conceito já não se viabilizava. Eu assisti toda essa transformação acontecer, com os produtores tendo de partir para explorar de maneira intensiva essas pequenas propriedades. Foi daí que veio o boom da suinocultura, da avicultura e um pouco mais tarde da bovinocultura de leite. E toda esta trajetória de acontecimentos foi no sentido de melhoria genética, de ganhos de produtividade… E, o que eu acho mais importante, gerou a preparação das pessoas do campo, o treinamento dos agricultores, para que aprendessem a fazer, inclusive, a própria contabilidade das suas atividades agropecuárias. Então, nestas três décadas, houve uma transformação realmente extraordinária que ocorreu num lapso de tempo que, eu diria, nem foi tão longo assim.

Alguns observadores que olham de fora o sistema cooperativista põem em dúvida a competitividade de uma cooperativa diante do desafio de conciliar meritocracia, como qualquer empresa, com a democracia interna. Esse é um desafio real de uma organização cooperativista gigantesca, como a Aurora?
A cooperativa tem um lado humano muito forte. A gente não pode nem negar e tampouco deixar de considerar esse aspecto. Quem faz parte de uma cooperativa? Geralmente, a maioria absoluta é formada por aquelas pessoas que individualmente não têm a capacidade de se viabilizar econômica e socialmente. As cooperativas são criadas justamente para você usufruir da sinergia que ela cria quando você compartilha a sua atividade, as suas dificuldades, os seus problemas com alguém que tem os mesmos objetivos. Então quem olha de fora para uma cooperativa vê essa interrogação… “Será que eles conseguem?” Puxa vida, eu até sei entender isso, acho que estas pessoas têm sua razão em estar olhando dessa maneira, porque administrar capital é uma coisa e administrar capital e pessoas é diferente. Lá na empresa que é baseada somente em capital eu imagino que o corte de cabeças de pessoas é algo mais simples de ser feito e até talvez uma prática que leve em conta apenas e tão somente produtividade que gere resultado econômico. Mas na cooperativa há uma diferença da qual nós nos demos conta já há bastante tempo. A diferença de que liderar pessoas é mais fundamental em uma cooperativa do que em uma empresa de capital. Você precisa estar bem com todo mundo. Se alguém não está bem, tem de ir lá e trabalhar essa pessoa para ver quais são as razões, e de repente constatar que ela tenha razão e não você. O nível de diálogo necessário numa sociedade cooperativa creio que é bem superior ao de outra sociedade de capital. E no mercado não tem perdão. Tem de produzir tão bem quanto, tem de remunerar o cooperado tão bem quanto e dar a ele uma justificativa para fazer parte, a certeza de que a cooperativa está ali para atender o cooperado, que a cooperativa é dele e não de quem a dirige.

A Aurora tem quase 70 mil produtores associados. Como treinar e capacitar tanta gente em novas tecnologias, novas práticas e conceitos, diante do perfil mais conservador de boa parte das famílias de agricultores?
Temos no Sistema Aurora a nossa Cooperativa Central e mais 11 cooperativas filiadas. Já há alguns anos, temos colocado debaixo do mesmo guarda-chuva uma série de ações que anteriormente eram estudadas e realizadas de maneira fracionada. Por exemplo, criamos um programa chamado Propriedade Rural Sustentável Aurora, o PRSA, e debaixo dele colocamos todas as ações que visam ao desenvolvimento e à sustentabilidade dos milhares de produtores rurais, tanto da Central quando das cooperativas. Óbvio que a Aurora, enquanto Central, tem interesse mais direto em capacitar os produtores de suínos, de frangos e de leite, que são os três grandes negócios que temos tanto no processamento quanto na comercialização de nossos produtos. Mas as cooperativas filiadas, que também fazem parte do Sistema, têm outros milhares de produtores que produzem grãos, que compram e vendem na cooperativa, realizam os atos cooperativos, e elas precisam, também, ser sustentáveis. Trabalhamos muito, aqui, o tema da sucessão na propriedade rural para que a cooperativa tenha continuidade.

A sucessão é chave para favorecer a modernização?
Temos de atender ao sonho do produtor rural que se associa a uma cooperativa. O sonho dele é olhar para a frente e pensar “meu filho e minha filha podem buscar instrução, frequentar uma universidade”. Mas a propriedade continua sendo um patrimônio que precisa ter rentabilidade e sendo ao mesmo tempo um lugar para se viver bem. O sistema Aurora tem há mais de duas décadas uma aliança muito produtiva e consistente com o Sebrae, e esta aliança que tem proporcionado tecnologias e recursos para a preparação dos produtores. Já passamos da casa de 30 mil famílias rurais que realizaram em suas propriedades algumas etapas imprescindíveis dos nossos programas em diferentes etapas. A primeira delas se chama “De Olho na Qualidade Rural”, que tem o objetivo de fazer com que a família do produtor rural readquira a autoestima que muitas vezes foi perdida em função das dificuldades que o agricultor viveu. Em outras épocas tivemos um êxodo rural extraordinário que até fez muitos pensarem que dentro de mais algum tempo não se teria mais gente trabalhando no campo. Nas nossas cooperativas estancamos o êxodo rural. As famílias começaram a investir nesse programa “De Olho na Qualidade Rural” para melhorar sua propriedade em todos os aspectos. Para viver melhor, mas não só isso. Também para trabalhar a questão da renda na propriedade, associando atividades econômicas que nós estimulamos.

“Nosso planejamento será para uma década, ao menos”

O que está mudando na gestão, no modo como o negócio do produtor é administrado?
Depois desse programa implantamos o QT Rural, de qualidade total, para preparar o produtor para a gestão das propriedades. Hoje você visita as propriedades cooperadas e vai encontrar o produtor, seu filho, sua filha utilizando um computador, fazendo planilhas, calculando, sabendo te dizer o resultado que deu a atividade A, o que não deu a atividade B, as razões disso… Então estou falando de gestão. Eles produzem boletins, balanços, balancetes, falam com naturalidade patrimônio, falam em Demonstrativo de Resultados, já incorporam uma linguagem do meio urbano e do meio empresarial. Nosso produtor rural se orgulha também de ser um empresário rural. De fato, costumo dizer sempre que ser um empreendedor rural, um produtor rural, é mais complexo do que administrar uma pequena empresa no meio urbano. Porque a atividade do agronegócio é complexa, de fato. Nem sempre as mesmas propriedades produzindo as mesmas atividades dão o mesmo resultado. São pequenas coisas que definem isso. Depois de mais de duas décadas fazendo este trabalho intensivo, levando técnicos gabaritados que orientam todos os trabalhos em grupos de famílias, nós vemos resultado. Nosso interesse é na família rural como um todo. É a família toda que tem essa oportunidade de receber uma verdadeira escola, uma universidade do meio rural que as cooperativas disponibilizam. Hoje os produtores já possuem grupos de estudo por atividade, e ali se reúnem sem a presença e nem a necessidade da mão da cooperativa. Porque o produtor de suíno, por exemplo, que enxerga a mesma preocupação nos seus pares, nos demais produtores, se junta a eles para contratar consultoria. Eles estão chegando a esses níveis. Esse trabalho todo mostra um verdadeiro encadeamento que acontece a campo e que faz com que hoje a gente tenha um conjunto de empresários rurais produtores com a estabilidade desejável. E muitos da nova geração que em outros tempos saíam do campo, no êxodo rural, hoje buscam fora uma formação acadêmica e, com o apoio das cooperativas, estão convencidos de que podem voltar e realizar seu sonho lá no interior mesmo, aplicando o conhecimento na gestão da propriedade rural.

Em 2021, a Aurora deve alcançar uma receita bruta operacional de R$ 19 bilhões. Isto será mais que o dobro do que faturou em 2018. E mais do que quatro vezes a receita de dez anos atrás. Como é que a Aurora se prepara para manter este ritmo de crescimento sem cair nas armadilhas do gigantismo, que, em tempos passados, desestabilizou muitas cooperativas?
É sempre uma boa razão olhar o passado, não repetir os mesmos erros de outras instituições. É possível que o sistema cooperativista volte a cometer seus pecados, claro, mas os tempos são outros e temos de tirar lições daqueles fatos e adotar medidas preventivas. Quanto ao sistema Aurora, houve de fato essa expansão. E ela precisa continuar, porque os milhares de produtores já integrados ao sistema, cooperados, também precisam individualmente buscar sua escala e, para isso, precisamos adotar novos parques de processamento, ou seja, novas plantas industriais. Então o crescimento vem pelo compromisso de respondermos às necessidades dos produtores rurais, pois eles são os donos das 11 cooperativas filiadas ao sistema Aurora. Óbvio que isso carece de uma análise regional. Nem todas as áreas são idênticas. Nós temos um quadro de cooperativas filiadas que atuam com uma atividade central, outras com duas e outras com três – suínos, frangos e leite. A gente tem que inaugurar, nesse momento, uma nova etapa de planejamento estratégico para olharmos a próxima década, pelo menos, e sabermos dentro disso como devemos projetar nossos próximos investimentos em sintonia, obviamente, com as questões do mercado. O mercado é de onde vêm as ordens, para nos orientar sobre onde é possível e onde não é adequado empenhar recursos e investimentos.

Com 11 cooperativas filiadas, 68 mil associados e mais de 50 mil funcionários, o sistema Aurora deve continuar a crescer até que patamar?
Nós não temos, nesse momento, um patamar delimitado. De um ano para outro as oportunidades podem aparecer, ou não. Pode ser ideal que os quase 70 mil produtores adicionem volumes na sua produção ou não. Então o primeiro compromisso nosso é com os produtores que já estão na nossa base. Se o cooperado hoje tiver uma produção de suínos que termine mil animais/ano e com isso obtenha uma renda suficiente para que ele possa viver bem no campo, nós podemos estabilizar por aqui e buscar agregar mais valor a essa matéria-prima que o produtor nos entrega. Mas se o mercado disser que com mil não dá mais e é necessário adicionar mais escala ou não haverá renda suficiente para o cooperado, será outra situação. Existe essa necessidade de continuarmos olhando para os verdadeiros donos do sistema cooperativo e buscando respostas para as necessidades que se apresentarem a eles. Então… veja que nós somos muito mais um meio do que um fim em nós mesmos. Temos que estar buscando sempre essa alternativa de viabilizar os nossos cooperados.

Fora de grandes centrais como a Aurora, existem cooperativas menores que atuam de forma isolada, sem escala para se viabilizarem no mercado. Em alguns casos, são dirigidas com uma visão localista e até isolacionista. Este é um obstáculo à consolidação do sistema cooperativista?
Olha, as cooperativas, todas elas, têm uma mesma origem e, digamos assim, uma mesma razão de existir. Mas no que diz respeito à forma de desenvolver seus negócios e atividades, as cabeças são diferentes. Existem pessoas líderes, especialmente, a quem compete adiantar os processos, enxergar, dialogar e buscar as alternativas para perpetuar as suas cooperativas. Mas perpetuar não significa apenas manter a cooperativa no seu estado atual. Pode ser que venham diferentes fases, ou uma metamorfose. Acho que o que importa, realmente, é ter a visão das lideranças que levem e conduzam o seu quadro de associados para um caminho seguro. Quando você fala de pequenas cooperativas que, isoladamente, podem ter desafios maiores para se viabilizar, isso é bem real porque estamos numa economia de mercado e, na maioria das vezes, a escala acaba sendo uma necessidade para desenvolver os negócios. Nesse aspecto, o sistema cooperativo dispõe de princípios muito importantes, e um deles é no sentido de recomendar que haja uma intercooperação entre as cooperativas. A intercoooperação pode ser, de fato, a tábua de salvação. Você sai do isolamento, migra para um estágio diferente e propicia vida longa ao seu quadro de cooperados. Talvez seja um pouco mais fácil a gente teorizar isso do que praticar, porque nem todos têm essa abertura de visão e nem todos abdicam de seus objetivos pessoais. E isso é algo que também precisa ser considerado e está, queiramos ou não, presente em muitas pessoas que ocupam postos de liderança no sistema cooperativo. Mas sem dúvida isto está mudando. Já faz algumas décadas que as cooperativas inauguraram essa transformação e eu creio que os próximos anos serão palco de muitas mudanças no quadro do sistema cooperativo brasileiro.

“Não temos acesso a dinheiro barato”

Por falar em escala, o sistema Aurora opera o terceiro maior conglomerado industrial de carnes. Neste ambiente de competição com gigantes do setor privado, a Aurora se sente com estrutura de capital à altura de suas necessidades para concorrer com os grandes players?
O sistema cooperativo é regido por uma legislação que o diferencia. Não podemos vender ações, nem fazer IPOs. Não podemos ir à bolsa captar recursos nas mesmas condições de uma sociedade de capital aberto. Então deixo de ter o ingresso no meu caixa de recursos a custo zero como a bolsa de ações propicia. A pergunta, de fato, é bem interessante e preciso ser corajoso e responder que… bom, até aqui foi possível. O mercado ainda vai mudar muito nesse aspecto. Preciso produzir resultados no meu negócio, gerar caixa, moderar meus investimentos – muitas vezes ficando aquém do que seria o nosso desejo para explorar oportunidades que aparecem…Enfim, há de fato a necessidade de se portar como cooperativa que faz a vontade, entre aspas, de seus cooperados. Mas eu diria que o mercado financeiro vem oferecendo alternativas. Em âmbito nacional temos entidades de representação bastante atuantes e fortes. Precisamos melhorar e ampliar nossa representação política, principalmente no Congresso Nacional, com o objetivo de assegurar espaços para que o cooperativismo possa continuar a responder positivamente para a sociedade. Também esperamos que os governos constatem o valor da atuação do modelo cooperativo e a necessidade de sua existência. Costumamos dizer que uma cooperativa bem gerida é o aliado que qualquer governo bem-intencionado quer, porque ajudamos e suprimos muitas vezes aquilo que poderia ser um compromisso de governo, respondendo positivamente perante a sociedade. Queremos acreditar nisso, que poderemos prosperar, avançar sem que precisemos abdicar do modelo de capital que estamos a viver hoje.

A Aurora obtém com suas exportações um terço de suas receitas, certo? Como o mercado externo está se comportando?A exportação no primeiro semestre teve um comportamento bastante interessante, nossos números mostram isso. Nesse momento, estamos assistindo a uma queda de preços internacionais em vista de ter havido uma relativa concentração no mercado chinês, efeito da demanda que existiu. A queda de preços é um problema que se soma ao crescimento dos nossos custos de produção, e falo aí do preço do milho, de soja, das embalagens… enfim, uma série de componentes importantes do nosso custo. Este conjunto de circunstâncias faz com que tenhamos inegavelmente, a partir de agora, uma sensível redução de margens, mesmo tendo emplacado a conquista de bons mercados de exportação ao longo desses últimos dois anos, quando o produto brasileiro ficou em evidência diante da peste suína africana ocorrida na China e em outros países. Com margens menores, nós vamos precisar ser bem cautelosos neste segundo semestre, uma vez que provavelmente haverá redução de embarques para alguns mercados externos, principalmente para a China. Será necessário realocar nossa produção para outros mercados externos não tão remuneradores quanto os que tivemos no primeiro semestre desse ano. Exportação é isso: sempre se busca capilarizar, pulverizar, mas nem sempre se encontra em um curto espaço de tempo espaços para realocar com rentabilidade a produção.

No front externo, o dedo acusador permanentemente apontado contra o agronegócio brasileiro por ambientalistas, principalmente da Europa, preocupa?
O que vejo nestas críticas é uma questão de cunho ideológica que pesa muito contra nós. E lamentamos assistir a muitos atores da política brasileira indo lá fora para facilitar as críticas que, nem sempre de maneira fundada, são levantadas contra o agronegócio brasileiro, especialmente pelos europeus. O que mais pesa nisso é o aspecto da competitividade. Apesar de dificuldade que nós temos em infraestrutura e uma série de outros problemas, o Brasil é visto de fato como uma ameaça aos produtores europeus, e falo europeus porque eles é que vêm alimentando essa briga com o governo brasileiro. Não creio que sejamos perfeitos em termos de políticas ambientais, mas o Brasil tem muitas providências positivas nesse aspecto. E nós, como produtores, somos comprometidos com a causa ambiental. A sustentabilidade é uma questão que sempre esteve presente, ao longo de muito tempo, em nossos negócios. É uma condição importantíssima para continuarmos sendo um player importante na alimentação do mundo. E como não queremos perder esta condição, somos os primeiros a desejar que as questões sejam sanadas. Não é um problema desse momento, obviamente, é uma questão de décadas, mas agora ganhou um cunho mais ideológico e, infelizmente, com “aliados” brasileiros que vão lá fora para criar confusão.

O campo precisa aprender a se comunicar melhor com os urbanos sobre as práticas da agricultura?
Sem dúvida. Nós, do campo, carecemos de divulgar informações mais constantes. Nem sempre encontramos em todos os veículos de comunicação espaço e disposição para vender o nosso peixe. Mas eu admito, nós temos essa preocupação, precisamos aprimorar os nossos meios e formas de nos comunicar com o meio urbano. Diria que já tivemos progresso nisso, principalmente nas cidades onde os empreendimentos de agronegócio existem. Nelas, o reconhecimento da sociedade urbana já é uma realidade. Bem diferente de cidades onde o agro é desconhecido e serve apenas para saco de pancadas.

“A cooperativa tem um lado humano muito forte. Ela é formada por pessoas que individualmente não conseguiriam se viabilizar econômica e socialmente, e que podem então compartilhar seus problemas”
Neivor Canton, presidente da Aurora 

Neste momento de aumento dos custos e compressão de margens, como as deficiências de infraestrutura pesam sobre os negócios? De que modo a ineficiência logística atrapalha a cadeia de suprimentos e distribuição da Aurora?
Olha, o quanto se perde até hoje não há uma planilha indicando exatamente, porque são fatores complexos, é difícil calcular. Mas há alguns parâmetros. Uma carga que eu preciso carregar aqui no extremo oeste e fazer chegar ao porto demora um dia e meio, dois dias. Ela poderia ir em meio dia, e isso teria um valor extraordinário que pode ser atribuído a cada tonelada de produto que exporto. O mesmo acontece para o mercado interno, mas essas cargas todas que vão e vêm em cima de pneus, por exemplo, poderiam viajar em cima de trilhos de ferro e nesse caso seria um ganho significativo que eu poderia estar agregando ao meu produto. O tempo que se leva para transportar o suíno, o frango vivo ou o leite em natura coletado na granja dos produtores para chegar à indústria é muito importante, pois repercute na taxa de mortalidade dos animais, na quebra do produto em função, também, do estado precário das rodovias. Na parte de tecnologia da indústria, de eficiência do parque fabril, estamos em condições de competir com o mundo. Mas note quantos fatores retiram ou reduzem o valor do produto até que ele chegue ao consumidor e que eu possa receber a remuneração. E esse desafio não acontece em todos os países que disputam conosco este mesmo mercado. Eu estaria doido para ver essa planilha de prejuízo logístico bem detalhada, principalmente por causa do estado das rodovias – não só das que ligam um estado a outro, mas também das que cortam todas as estradas rurais em condições precárias e que não recebem investimento há muito tempo. Não falo apenas de Santa Catarina, mas é aqui que tem uma grande intensidade de trânsito de mercadoria, e tudo isso influencia na questão da produtividade. Se nós conseguimos espaço no mercado externo nas condições em que estamos, o dia em que tivermos os investimentos que de fato se fazem necessários poderemos ser ainda mais otimistas em relação ao nosso futuro.

Há muitos anos a Aurora reivindica condições melhores para se abastecer de milho. Qual a importância deste insumo na cadeia de negócios?
O nosso presidente que se foi, o Mário Lanznaster, dizia que o frango é uma espiga de milho com asas. E não é muito diferente quando falamos do suíno. O milho corresponde a 60%, praticamente, do custo de produção para o nosso produtor ou para a agroindústria. A soja, para a composição da ração, também é muito importante. A situação do abastecimento desses insumos continua castigando severamente a atividade que converte esses grãos em proteína animal. Se o produtor de grãos se diz satisfeito com os preços, ótimo, ele também faz parte de nossa cadeia e aproveita o seu bom momento. Já faz alguns anos que o produtor de grãos busca se capitalizar. Mas a gente espera que a gangorra de custos se acerte porque o consumidor final, hoje em dia, não está com dinheiro suficiente no bolso para absorver os preços pelos quais os produtos deveriam estar sendo oferecidos ao mercado. Então esse aumento de custos e os prejuízos decorrentes ficam compartilhados na cadeia de produção. O centro-oeste continua sendo o grande abastecedor destes insumos para o Sul, em especial para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O Paraná, que era autossuficiente em milho, será agora mais um buscando o produto no mercado. Vamos ser obrigados a ampliar importações da Argentina e, talvez, começar a trazer dos Estados Unidos, que é quem poderia nos socorrer. O Paraguai também poderia, mas sofreu com geadas, igualmente.

Há uma melhora em curso nos investimentos em infraestrutura?
Temos assistido um esforço, principalmente do governo federal, mas os orçamentos ainda são pífios para a necessidade de investimentos que o país tem. Vejo que é resolver esse problema representado pelo custo da máquina pública brasileira, que arrecada uma barbaridade e consome recursos em si mesmo, em vez de investir. Esta é uma crítica que se faz há muito tempo e o problema continua sem solução. O alto percentual de impostos que pagamos não é convertido em obras, e isso vai secando nossa capacidade de competir. E há setores em que a infraestrutura está minguando e até piora. É o caso de muitas rodovias. É lamentável.

Esse conteúdo integra a edição 338 da revista AMANHÃ, publicação do Grupo AMANHÃ. Clique aqui para acessar a publicação on-line, mediante pequeno cadastro.