De ETFs a FIDCs, especialistas apontam melhores fundos para capturar oportunidades na renda fixa em meio à alta das taxas

SÃO PAULO – O trabalho do Banco Central (BC) para conter o avanço da inflação por meio da elevação da taxa Selic, bem como os riscos políticos e fiscais no radar, tem atraído muito investidor de volta para a renda fixa. Neste cenário, os fundos de investimento se destacam como uma das principais alternativas encontradas pelos interessados para capturar as oportunidades na classe.

Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que em 2021, até 25 de agosto, fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 191,2 bilhões, cerca de 65% do total captado pela indústria como um todo no intervalo e revertendo a tendência observada no ano passado. Em 2020, com a taxa básica de juros nas mínimas históricas, a categoria de renda fixa teve saída líquida de R$ 41,2 bilhões.

Boa parte do dinheiro tem sido destinada para as aplicações mais conservadoras disponíveis, como os fundos DI, que, após terem registrado retorno real negativo nos últimos meses, ou seja, abaixo da inflação, prometem ganhos mais polpudos mirando o horizonte de 12 a 24 meses à frente.

Vale lembrar que, em 12 meses, até o dia 27, o CDI acumulava variação de 2,7%, enquanto a inflação medida pelo IPCA-15, prévia do indicador oficial brasileiro, registrava alta de 9,3%, até agosto.

Os dados da Anbima mostram que, do volume captado pelos fundos de renda fixa neste ano, a maior parcela, R$ 117,8 bilhões, ou aproximadamente 62%, foi destinada para aqueles classificados como “Renda Fixa Duração Baixa Soberano”, como os fundos DI que se propõem a acompanhar o rendimento do CDI.

Guilherme Wertheimer, planejador financeiro com certificação CFP e conselheiro da Planejar, assinala que, nos próximos 12 meses, fundos que acompanham a variação da taxa Selic devem apresentar rentabilidade bem superior à do intervalo imediatamente anterior, em meio ao processo de alta dos juros.

“Ao tomar a decisão de investimento, a pessoa não deve olhar para trás”, diz Wertheimer, acrescentando que os fundos de renda fixa de menor risco são recomendados especialmente para que o investidor mantenha a reserva de liquidez, ou para quem tem um perfil mais conservador e não gosta de ver oscilações negativas na cota do fundo – ainda que possa perder para a inflação.

O risco neste caso, afirma o planejador, é de a inflação se descontrolar, o que não é hoje o cenário-base do mercado – a projeção para o IPCA em 2022 no mais recente relatório Focus está em 3,95%.

Para quem tem disposição para assumir um pouco mais de risco, fundos que acompanham a variação de títulos públicos prefixados ou indexados à inflação e que investem em emissões privadas se destacam no radar de especialistas dentro do nicho.

Confira a seguir alguns dos principais prós e contras do investimento em renda fixa por meio de fundos no mercado local.

Fonte: Gestoras

ETF de renda fixa

Para quem aceita um pouco mais de risco dentro da classe, fundos que acompanham títulos públicos do tipo prefixado ou indexado à inflação se mostram boas alternativas na avaliação de especialistas, tendo em vista a alta recente das taxas de remuneração oferecidas pelos papéis que compõem as carteiras.

Para Alexandre Brito, sócio da área de wealth da Finacap Investimentos, os ETFs de renda fixa, como o IMAB11, do Itaú, podem ser uma boa opção aos investidores em busca de exposição à renda fixa indexada à inflação, dentro de uma diversificação ampla da carteira por meio das principais classes de ativos.

Os ETFs têm como proposta replicar o desempenho de índices de renda fixa como o IMA-B, que acompanha títulos públicos indexados à inflação, caso do produto citado pelo especialista, ou o IRF-M, que segue os papéis prefixados do Tesouro, sem ter como objetivo superar o rendimento dos benchmarks, como é no caso dos fundos de gestão ativa.

Hoje existem sete ETFs de renda fixa na Bolsa brasileira, dos quais cinco acompanham a evolução nos preços dos títulos indexados à inflação, e dois, dos prefixados. O gestor da Finacap destaca que, ao optar pelo ETF de renda fixa, o investidor precisa estar ciente que a cota vai oscilar na Bolsa como uma ação, podendo negociar com desconto ou ágio em relação ao valor dos ativos que se propõem a replicar.

Ele lembra ainda que, além do custo baixo – a taxa de administração começa em 0,20% e chega a 0,30% ao ano –, os ETFs de renda fixa são tributados sob uma alíquota de 15%, independentemente do prazo da aplicação, enquanto os fundos da classe têm a mesma cobrança apenas depois de dois anos.

Além disso, os ETFs não têm incidência do come-cotas, tributação semestral (em debate na reforma tributária no Congresso) que incide sobre os fundos de renda fixa. “Gostamos da filosofia de investimento seguida por grandes gestoras globais como a Vanguard, com estudos que mostram que a maior parte do retorno vem do trabalho de asset alocation, de diversificação entre as classes, e menos do stock picking e do timing dos gestores”, diz Brito, acrescentando que a visão vale principalmente para a classe de renda fixa no mercado local.

Apesar das vantagens elencadas, em termos de retorno, até aqui, os fundos de índice de renda fixa, como também são conhecidos os ETFs, não têm conseguido entregar um grande resultado. O ETF do Itaú que segue o IMA-B rende 2,3% em 12 meses, mas tem queda de 1,5% em 2021, até 27 de agosto.

O rendimento apresentado, lembra Brito, tem relação direta com a alta recente das taxas dos títulos em meio às discussões fiscais e políticas em Brasília, que gera um rendimento negativo em função do efeito da marcação a mercado.

De toda forma, o gestor da Finacap entende que o ETF pode compor bem dentro de uma carteira diversificada, principalmente diante da rentabilidade oferecida hoje no segmento. Ele destaca o fato de os prêmios reais dos títulos Tesouro IPCA de prazo intermediário, ao redor de 2030, oscilarem atualmente próximo ao nível observado em março de 2020, no início da pandemia, ao redor de 4,5% ao ano.

“A percepção de risco dos investidores em relação ao país hoje é muito menor do que naquela época”, afirma Brito, que vê uma boa oportunidade na exposição aos ativos indexados à inflação neste momento, especialmente naqueles com prazo entre 2026 e 2030.

O gestor da Finacap diz ainda que, caso o investidor não queira ele próprio entrar no sistema de home broker de sua corretora para adquirir o ETF, é possível investir em fundos de baixo custo que se propõem a seguir benchmarks da classe, como a família de fundos Trend, da XP.

“O investimento em renda fixa tem diversas alternativas, que vão depender do nível de risco que o investidor quer correr”, afirma o planejador Wertheimer. Ele diz que o ideal é que a pessoa não selecione apenas uma opção, mas busque diversificar o portfólio, colocando um pouco em cada alternativa.

Leia mais:
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Enquanto os prefixados vêm despertando interesse crescente frente às taxas de dois dígitos recentemente alcançadas, em níveis já acima da Selic prevista para os próximos meses, no caso dos indexados à inflação, contribuem as incertezas para a evolução dos preços no restante de 2021 e em 2022, em meio aos riscos político e fiscal no radar.

Segundo Rodrigo Sgavioli, head de alocação e fundos da área de research da XP Investimentos, na carteira recomendada aos investidores, a casa reduziu recentemente de maneira marginal a alocação em renda variável local, frente ao aumento das incertezas domésticas, com um incremento da exposição em títulos públicos e privados de renda fixa indexados à inflação, via alocação direta nos papéis por meio do Tesouro Direto ou via fundos.

Crédito privado

Eliseu Hernandez, sócio e líder de renda fixa da Blue3, diz que, considerando o universo de fundos de renda fixa, vê as melhores opções no segmento de crédito privado. Entre elas, o especialista cita fundos que investem em debêntures incentivadas, com o benefício da isenção do Imposto de Renda (IR) à pessoa física.

Neste caso, afirma Hernandez, o investidor delega a um gestor especializado o trabalho para formar uma carteira diversificada com as melhores emissões de empresas dos setores de energia, logística e saneamento, com a alternativa de fundos que ficam expostos, ou não, às oscilações das taxas no mercado de juros futuros.

“O ideal é que o investidor verifique qual é o perfil de risco com o qual se sente mais confortável, até porque os fundos de renda fixa podem oscilar bastante”, afirma o sócio do Blue3. Entenda mais sobre os fundos de debêntures incentivadas aqui.

Wertheimer também vê boas oportunidades no segmento de crédito privado em produtos isentos à pessoa física, apontando ainda no grupo os fundos imobiliários destinados a comprar Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Ele lembra que os fundos de papel têm se destacado nos últimos meses como uma das categorias mais resilientes dentro do mercado de fundos imobiliários.

Sgavioli, da XP, enfatiza que é preciso ter atenção redobrada neste momento com os fundos que focam sua atuação nos títulos privados grau de investimento. O provável fluxo de recursos atraídos pelos rendimentos crescentes da Selic pode derrubar o prêmio da classe e reduzir o apelo para o investidor, afirma o especialista.

“O spread do risco de crédito já tem diminuído”, diz Brito, da Finacap, lembrando que a própria alta recente nos rendimentos dos títulos públicos, que não foi acompanhada na mesma proporção pelos pares privados, contribui para o fechamento dos prêmios no segmento de crédito.

Neste cenário, uma saída possível indicada pelos especialistas é partir em direção a uma sofisticação maior dentro da categoria, como os fundos que investem em papéis conhecidos como high yield, de maior expectativa de rentabilidade e de risco.

“É um momento excelente para os investidores entenderem que a renda fixa não serve só para a reserva de emergência, porém traz mais risco”, diz Sgavioli. Ele cita tanto casas já há bastante tempo no mercado, como JGP e Capitânia, como também gestoras criadas mais recentemente por profissionais com anos de estrada, como Augme e Riza, entre as assets que têm acompanhado com atenção no nicho de crédito estruturado.

O retorno almejado neste caso, afirma o especialista da XP, tende a oscilar dentro de uma banda entre 2% e 4% ao ano, além da variação do CDI. “Estamos caminhado para um mercado de capitais em que a renda fixa está cada vez mais sofisticada, com um leque maior de gestores”, diz Sgavioli.

FIDCs

Em linha parecida, David Kim, gestor da More Invest, aponta a predileção pelos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Na categoria, os empréstimos financiados pelos investidores se destinam a atender às necessidades de empresas de pequeno e médio porte, de maior nível de risco e expectativa de retorno, na comparação com os veículos que investem em títulos grau de investimento, das maiores empresas do mercado.

Segundo o gestor da More Invest, a taxa de retorno nesses casos costuma variar ao redor de CDI mais 3,5% a 5,5% ao ano, com uma expectativa de ganho nominal acima dos dois dígitos conforme o BC avançar com o processo de aperto monetário. “Os FIDCs são a alternativa que mais gostamos dentro da renda fixa”, afirma Kim.

Captalys, Empírica, Riza e Capitânia estão entre as gestoras com FIDCs usualmente no radar para destinar os recursos dos clientes na More Invest. São casas que souberam conduzir bem o trabalho de monitoramento e eventuais ajustes necessários nas carteiras de crédito durante os últimos meses marcados pela pandemia, diz o gestor.

Ele explica também que os FIDCs são estruturados com diferentes tipos de cotas de investimento, que variam de acordo com o nível de risco e expectativa de retorno. Na gestora, a preferência recai especialmente sobre as cotas chamadas de sênior, que têm uma espécie de colchão de proteção contra eventuais inadimplências das empresas emissoras formada pelas cotas subordinadas. “O risco no FIDC é maior que nos fundos que investem em ativos ‘high grade’, mas é bastante mitigado pela subordinação”, afirma Kim.

Os fundos em direitos creditórios são restritos apenas ao público considerado como qualificado pela legislação, mas a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tem avaliado atualizar a legislação para permitir o acesso aos FIDCs a uma gama mais ampla de investidores.

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