Alta recente da Bolsa: correção ou retomada de um cenário de ganhos?

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SÃO PAULO – O Ibovespa registrou altas relevantes desde que atingiu seu menor nível em quatro meses na metade de agosto. Com isso, alguns investidores já se perguntam se essa recuperação é apenas um movimento técnico de correção ou um novo impulso de valorização.

Para dar um pequeno histórico, o benchmark chegou até os 130.776 pontos em 7 de junho e desde então iniciou um movimento lateral entre os 125 mil e os 130 mil pontos, que descambou para um movimento de queda em julho, notadamente a partir do dia 15, quando três baixas consecutivas levaram o índice aos 124.395 pontos e depois mais três recuos entre os dias 16 e 18 de agosto, quando o benchmark atingiu sua mínima desde abril aos 116.643 pontos.

Depois disso, por outro lado, o Ibovespa teve altas nos dias 19 e 20 e avançou 2,33% no dia 24 após a fala de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, de que o Congresso Nacional buscará alternativas para garantir a responsabilidade fiscal em meio ao impasse envolvendo o pagamento de R$ 89,1 bilhões em precatórios em 2022. Isso, combinado com o desempenho positivo de hoje coloca o benchmark de volta nos 120 mil pontos.

Cabe destacar que, na época em que o declínio começou, Marcus Vinícius Zanetti, gestor da Kinea, disse ao InfoMoney que o risco fiscal havia subido drasticamente com a edição da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios, que mina ainda mais a credibilidade do teto de gastos.

De acordo com o gestor, embora o múltiplo valor da empresa dividido pelo lucro médio na Bolsa esteja atrativo, é preciso ponderar que esse nível, a um desvio-padrão da média histórica, parece razoável diante de uma eleição polarizada para presidente da república em 2022, com risco cada vez maior de guinada populista para obtenção do apoio popular.

“Não vejo este como um ótimo momento para compra indiscriminada. É importante olhar para empresas específicas que estejam menos expostas ao ciclo econômico e a fatores políticos”, defende.

E não é só a política que funciona como fator de instabilidade. As intervenções da China no setor de commodities, o avanço global da variante delta do coronavírus e a crise hídrica brasileira também servem como promotores de maior cautela.

Sobre as commodities, a semana foi de recuperação: o minério de ferro na Bolsa de Dalian (China), por exemplo, subiu 9,3% na semana, interrompendo uma série de cinco semanas de perdas, com os investidores apostando que os esforços da China para atingir as metas econômicas impulsionarão a demanda. Além disso, preocupações com a oferta contribuíram para o avanço.

Um outro ponto de incerteza também deixou de preocupar tanto nesta sexta-feira (27). A sinalização da ata da última decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), apontando para uma redução nos estímulos já no fim deste ano tinha levado investidores globalmente a venderem ações.

Entretanto, o discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, hoje no simpósio de Jackson Hole, com indicações que vai demorar ainda muito tempo e que o Fed acompanhará diversos dados econômicos antes que a redução de compras de ativos evolua para um ciclo de aperto monetário, trouxe muito alívio aos agentes do mercado.

Alexandre Sabanai, gestor da Perfin Investimentos, destaca que a expectativa era de um Fed bem mais hawkish (favorável subir juros para conter a inflação) antes do evento de hoje.

Para Gabriel Marzotto, sócio da Quasar, apesar de todas as incertezas no cenário ainda há uma assimetria positiva na Bolsa brasileira. “Vemos juros longos em 10%, câmbio em R$ 5,50 e a Bolsa negociando um desvio-padrão abaixo da média histórica. É um bom ponto de entrada”, defende Marzotto.

De acordo com ele, em um cenário-base no qual não ocorra nenhuma ruptura institucional ou um racionamento de energia severo, o Ibovespa deve subir até o fim do ano.

Apesar do otimismo, o gestor comenta que a visibilidade do lucro das empresas nos próximos 12 meses ficaria prejudicada em um contexto de apagão e ruptura institucional, de modo que seria necessário rever seu portfolio de investimentos para uma seleção mais defensiva do que a atual. “Em 2021, nossa visão é positiva, senão eu teria muito mais caixa”, diz.

Já Welliam Wang, gestor da AZ Quest, mostrou uma visão mais cautelosa e disse que há dúvidas sobre a manutenção do teto de gastos com a insistência do governo em aumentar o benefício do Bolsa Família ao mesmo tempo em que os dados de inflação vêm acima da expectativa e isso leva a uma perspectiva de aumento maior dos juros, o que também desaquece a economia.

“Se somar também com o aumento do preço da energia por causa da crise hídrica, temos um cenário de crescimento econômico baixo e [Produto Interno Bruto] do Agronegócio impactado por seca e geada”, completa.

Wang acredita que parte desses riscos já foi precificada na Bolsa, porém que alguns setores como o de construção e imobiliárias ainda não reflete completamente a quantidade de incertezas que existe no cenário.

Alisson Correia, CEO da Top Gain, por sua vez, diz enxergar esse movimento de alta dos últimos dias como uma correção “muito mais pela falta de notícias negativas do que por contextos favoráveis”. “O cenário daqui para frente continua sendo negativo. Temos uma percepção mais pessimista tanto para Bolsa como para dólar até o fim do ano. Imagino o câmbio perto de R$ 6,00 e a Bolsa nos 115 mil pontos”, projeta.

Na avaliação de Correia, os embates políticos, as manifestações marcadas para os dias 7 (a favor do governo) e 12 (contra o governo), as reformas que não foram entregues e os questionamentos em relação ao Imposto de Renda, além dos comentários controversos do ministro da Economia, Paulo Guedes, indicando tolerância com a inflação mais elevada, somam-se para criar um contexto muito negativo.

Alexandre Sabanai lembra que o mercado olha também com muita atenção para o combate à inflação no Brasil, com todo o ciclo de aumento de juros iniciado pelo Banco Central este ano. “É uma inflação com um custo de oportunidade maior. A curva de DI futura subiu bastante.”

O cenário-base de Sabanai, todavia, continua em uma nota positiva. “O mercado entende que uma quebra institucional tem baixíssima probabilidade e do lado macroeconômico, o BC não tem uma postura negacionista em relação à inflação. Eu defendo que o investidor coloque na sua carteira ativos cujos fundamentos de compra sejam mais relacionados ao ambiente micro do que ao macro, mas chamar de obrigatório buscar um portfolio defensivo não é uma boa definição”, conclui.

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