Quando a mente pede ajuda, mas nós não percebemos: análise de Taiza Tosatt Eleoterio

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Taiza Tosatt Eleoterio

Conviver com um sofrimento emocional persistente sem reconhecê-lo como tal é uma experiência mais comum do que se costuma imaginar. Muitas pessoas atravessam períodos prolongados de angústia, esgotamento ou tristeza sem conseguir nomear o que estão sentindo como sofrimento psicológico, o que tende a postergar a busca por apoio e a ampliar o impacto do que está sendo vivido.

Essa dificuldade não é uma falha de percepção, nem uma questão de força ou fraqueza, explica a especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio. Ela resulta de um conjunto de fatores que vão desde a forma como o sofrimento emocional se instala, frequentemente de maneira gradual e silenciosa, até as crenças culturais que determinam o que é considerado sofrimento suficientemente grave para merecer atenção.

Nos próximos tópicos, veja como esse processo influencia a saúde emocional e quais são os principais fatores que dificultam esse reconhecimento.

Como identificar o acúmulo de pequenas alterações emocionais antes que se tornem um problema maior?  

Uma das características mais relevantes do sofrimento emocional é sua tendência a se instalar de forma progressiva. Ao contrário de uma dor física aguda, que apresenta um início claro, o sofrimento psicológico muitas vezes começa com alterações sutis que vão se acumulando ao longo do tempo, sem que haja um momento óbvio de ruptura.

A irritabilidade que aumenta gradualmente, o cansaço que não melhora com o descanso, o distanciamento progressivo de atividades e relações que antes geravam prazer são formas de sofrimento que tendem a ser normalizadas justamente porque chegam devagar. Quando a pessoa finalmente percebe que algo está fora do equilíbrio, muitas vezes já está há algum tempo funcionando com recursos comprometidos, informa Taiza Tosatt Eleoterio.

Essa progressividade é um dos principais fatores que explicam por que o sofrimento emocional frequentemente não é reconhecido em suas fases iniciais. A adaptação ao estado de desconforto funciona como uma espécie de anestesia que reduz a percepção da mudança, tornando mais difícil identificar quando o limite do que se consegue suportar foi ultrapassado.

Crenças culturais minimizam o sofrimento emocional e dificultam a busca por ajuda 

Além da progressividade, há um conjunto de crenças culturais que contribuem para que o sofrimento emocional não seja reconhecido como tal. A ideia de que o sofrimento psicológico precisa ser intenso ou incapacitante para merecer atenção, de que sentir-se mal sem uma “razão clara” não é suficiente para buscar apoio, ou de que admitir dificuldades emocionais é sinal de fraqueza, são crenças que levam muitas pessoas a minimizar o que estão sentindo.

Há também uma comparação frequente com situações percebidas como objetivamente piores: “outros passam por coisas muito mais difíceis”, “não tenho razão para me sentir assim”. Essa comparação, ainda que bem-intencionada como forma de relativizar o próprio sofrimento, pode ter o efeito de invalidá-lo, reforçando a percepção de que não há justificativa para buscar ajuda.

Conforme analisa Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, o sofrimento emocional não precisa de comparação ou de justificativa para ser real. Ele existe independentemente de suas causas serem objetivamente graves ou de haver outras pessoas em situações piores. Nesse sentido, reconhecer essa legitimidade é um passo importante para que o cuidado com a saúde emocional possa ser buscado sem culpa.

Por que é importante aprender a nomear nossas emoções desde cedo?  

A capacidade de reconhecer o próprio sofrimento emocional está diretamente relacionada ao nível de autoconhecimento emocional desenvolvido ao longo da vida. Pessoas que aprenderam, desde cedo, a nomear e a prestar atenção no que sentem, tendem a identificar com mais rapidez quando algo está fora do equilíbrio, o que facilita a busca por apoio em momentos mais precoces.

Pessoas que cresceram em ambientes em que as emoções eram pouco verbalizadas ou em que o sofrimento era tratado como algo a ser superado sem expressão, por outro lado, podem ter mais dificuldade em desenvolver esse vocabulário emocional interno. De acordo com Taiza Tosatt Eleoterio, o sofrimento dessas pessoas tende a se manifestar mais claramente em sintomas físicos ou comportamentais do que em estados emocionais bem identificados.

Desenvolver autoconhecimento emocional é um processo que pode acontecer em diferentes fases da vida e por meio de diferentes caminhos, incluindo o acompanhamento psicanalítico ou psicológico, a reflexão sobre as próprias experiências e o contato com pessoas que ofereçam escuta genuína. O ponto de partida pode ser simples: prestar atenção, com mais regularidade, no que se está sentindo e nomear isso, mesmo que de forma imperfeita.

Clareza emocional: como o acompanhamento especializado pode ajudar  

Uma das perguntas mais comuns entre pessoas que vivenciam sofrimento emocional sem reconhecê-lo claramente é: “Quando é que eu deveria buscar ajuda?”. A resposta mais honesta é: antes do que a maioria das pessoas imagina.

Não é necessário estar em crise para que o apoio especializado seja relevante. Sintomas persistentes que afetam a qualidade do sono, das relações ou da capacidade de sentir prazer nas atividades cotidianas, mesmo que não sejam incapacitantes, já são indicadores de que algo merece atenção. Da mesma forma, a sensação de que algo está fora do equilíbrio, mesmo sem conseguir nomeá-la claramente, é em si mesma um sinal que merece ser levado a sério.

Um dos papéis mais relevantes do acompanhamento especializado é justamente ajudar as pessoas a desenvolver maior clareza sobre o que estão sentindo, em um espaço em que esse reconhecimento pode ocorrer com suporte e sem julgamento. Buscar esse espaço, segundo Taiza Tosatt Eleoterio, é uma forma de cuidado que pode ter impacto duradouro sobre a qualidade do bem-estar emocional ao longo do tempo.

 

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