Leitura, escrita e envelhecimento cerebral: o que o hábito de ler e escrever produz em termos de reserva cognitiva e proteção contra o declínio na terceira idade?

Diego Velázquez
Diego Velázquez
Yuri Silva Portela

Conforme ressalta Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, entre os hábitos que a neurociência identifica como protetores do cérebro envelhecido, a leitura e a escrita ocupam um lugar de destaque que a medicina preventiva ainda não aprendeu a prescrever com a seriedade que as evidências justificam. 

Ler um livro, escrever uma carta ou manter um diário não são apenas atividades de lazer ou expressão pessoal: são formas de exercitar circuitos cerebrais complexos que, quando mantidos ativos ao longo da vida, contribuem para a construção de uma reserva cognitiva capaz de retardar as manifestações clínicas do declínio. Prepare-se para entender o que essas práticas cotidianas fazem com o cérebro que envelhece.

Reserva cognitiva: o conceito que explica por que alguns cérebros resistem mais

A reserva cognitiva é a capacidade do cérebro de tolerar danos ou alterações patológicas sem que isso se manifeste em sintomas clínicos evidentes. Indivíduos com maior reserva cognitiva podem ter as mesmas alterações cerebrais de uma pessoa com demência e ainda assim funcionar de forma cognitivamente normal por anos a mais. Entre os fatores que contribuem para a construção dessa reserva ao longo da vida, a escolaridade, a complexidade da atividade profissional e o engajamento em atividades intelectualmente estimulantes, como a leitura e a escrita, estão entre os mais documentados.

Como analisa Yuri Silva Portela, a reserva cognitiva não é um estoque fixo determinado pela genética: ela pode ser ampliada ao longo de toda a vida, incluindo na terceira idade. De fato, um idoso que inicia ou mantém o hábito de leitura regular está investindo ativamente na proteção de seu cérebro, mesmo que esse investimento não produza resultados imediatamente visíveis nos testes cognitivos convencionais.

O que acontece no cérebro durante a leitura?

A leitura é uma das atividades cognitivas mais complexas que o ser humano realiza. Ela ativa simultaneamente áreas relacionadas à decodificação visual, à compreensão semântica, à memória de trabalho, à atenção sustentada e, no caso de narrativas ficcionais, à simulação mental de emoções, perspectivas e cenários. Essa ativação multirregional e simultânea é exatamente o tipo de estímulo que favorece a formação e a manutenção de conexões sinápticas que sustentam a reserva cognitiva.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, a leitura de ficção merece destaque especial nesse contexto. Estudos demonstram que a leitura de narrativas ficcionais ativa as mesmas regiões cerebrais que seriam utilizadas se o leitor estivesse vivendo as situações descritas, um fenômeno que estimula a teoria da mente, capacidade de compreender perspectivas diferentes da própria, e que está associada à manutenção das habilidades sociais e emocionais na terceira idade.

A escrita como ferramenta de organização cognitiva e bem-estar emocional

Se a leitura alimenta o cérebro com estímulos externos, a escrita o obriga a organizar, estruturar e expressar o que está interno. Afinal, escrever exige recuperação de memória, escolha lexical, organização lógica do pensamento e monitoramento da própria produção, processos que envolvem o córtex pré-frontal e outras áreas executivas particularmente vulneráveis ao envelhecimento. Manter um diário, escrever cartas ou registrar memórias são práticas que exercitam essas funções de forma regular e acessível.

Conforme expõe o doutor Yuri Silva Portela, a escrita expressiva tem ainda um componente emocional clinicamente relevante. A escrita sobre experiências difíceis ou sobre aspectos significativos da própria história está associada a reduções mensuráveis de marcadores de estresse, melhora do humor e maior sensação de coerência e significado em relação à própria trajetória de vida, fatores que impactam diretamente a saúde mental do idoso.

Como incorporar leitura e escrita ao cuidado geriátrico?

Recomendar leitura e escrita como parte de um plano de cuidado geriátrico não exige alta escolaridade do paciente nem acesso a recursos sofisticados. Histórias em áudio para idosos com dificuldade visual, grupos de leitura em centros de convivência, cadernos de memórias orientados por perguntas simples sobre a história de vida do paciente são formas acessíveis de incorporar essas práticas ao cotidiano de idosos com diferentes perfis e contextos.

No fim, Yuri Silva Portela retrata que prescrever cultura é também prescrever saúde. O médico que recomenda um livro, que pergunta sobre o que o idoso está lendo ou que sugere que ele comece a registrar suas memórias está oferecendo uma intervenção preventiva de alto valor com custo mínimo, baseada em evidências sólidas e com potencial de transformar a qualidade de vida de quem a adota.

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