Cidades globais aceleram corrida pelos dados para enfrentar a pandemia

Prefeitos de Lisboa, Londres e Toronto detalharam avanços tecnológicos que estão promovendo e desafios que enxergam pela frente

Os líderes públicos estão precisando agir de uma forma inédita, intensificando o uso de tecnologia para combater a disseminação da Covid-19

Como três grandes metrópoles mundiais encaram as dificuldades de hoje e se preparam para 2021? No segundo dia de programação, a Web Summit reuniu três prefeitos para responder essa questão: Fernando Medina (Lisboa), John Tory (Toronto) e Sadiq Khan (Londres). Como não poderia deixar de ser, a pandemia foi o grande pano de fundo da discussão. Os líderes públicos estão precisando agir de uma forma inédita, intensificando o uso de tecnologia para combater a disseminação da Covid-19. E uma corrida pelos dados e por sua correta utilização está em curso, gerando uma série de incertezas e receios entre a população.

A persuasão portuguesa
À frente da capital portuguesa, Fernando Medina defendeu que o grande desafio não está no que a tecnologia pode fazer, mas demonstrar às pessoas a razão de seu uso e como isso pode ocorrer com segurança. “Obviamente, estamos utilizando um monte de dados agora que não estávamos há alguns meses. A pandemia aumentou a quantidade de dados que pode ser empregada pela tecnologia”, afirmou. Segundo ele, a situação de emergência imprimiu uma velocidade inédita ao processo: “Problemas que demorariam anos para ser resolvidos acabam sendo solucionados em semanas”

O prefeito lisboeta contou que possui em seu celular um mapa georreferencial que informa cada infecção que surge na cidade. Com esse recurso, são ativadas equipes remotas que entram em contato com a pessoa infectada para oferecer atendimento de saúde e serviços sociais, de modo que seja possível permanecer isolada. “A grande questão não é a tecnologia em si, mas como se organizar para dar ao público garantias de que apenas as pessoas certas terão o acesso correto às informações”, revelou o gestor.

De acordo com Medina, o arranjo institucional sobre como lidar e proteger todos esses dados foi a parte mais difícil — já que as empresas foram rápidas no desenvolvimento de soluções. “No sistema que elaboramos, apenas os médicos e enfermeiros têm a informação individual sobre uma pessoa. O restante da cidade pode acessar apenas uma parte desses dados”, detalhou.

A prudência britânica
Sadiq Khan, que administra a capital inglesa desde 2016, destacou que muitos cidadãos estão nervosos ou amedrontados em relação a algumas desvantagens da tecnologia. Foi o que aconteceu quando o governo britânico lançou o aplicativo de rastreamento da Covid-19. “Houve uma grande preocupação sobre quem teria aqueles dados, e preocupação sobre o Big Brother”, recordou, em referência ao clássico 1984, de George Orwell.

O prefeito mencionou ferramentas que estão sendo utilizadas pela prefeitura, como a análise de dados sobre o padrão de jornada das pessoas. Esse recurso possibilita saber, por exemplo, quais estações do metrô estão cheias e, assim, adotar medidas para evitar aglomerações. “O que estamos tentando fazer é dar confiança aos londrinos sobre as tecnologias emergentes”, afirmou, deixando claro que o desafio não é simples.

Segundo Khan, o governo assegurou que não haveria uma “propriedade central” desses dados. Outro aspecto importante nesse processo, pontuou o trabalhista, está na parceria com o setor privado. “É importante que sejamos transparentes sobre quais são as regras do jogo. Não faz sentido ter grandes tecnologias se elas não satisfazem as expectativas que temos sobre elas. Ninguém quer suas liberdades civis infringidas ou seus direitos humanos abusados”, disse.

A cooperação canadense
Prefeito de Toronto, John Tory salientou que os dados devem ser usados de uma forma que respondam às preocupações da comunidade. “Estamos coletando um monte de dados agora com uma diversidade de indicadores demográficos, formando uma base para um plano assertivo sobre a Covid-19”, relatou, acrescentando que o desafio está em convencer os cidadãos receosos de que eles serão beneficiados pela medida.

O canadense avaliou que existe um sentimento de medo da população diante de grandes multinacionais e do governo quanto à coleta de dados, com insegurança sobre se essas informações serão compartilhadas. “Você precisa ter a confiança pública quando usa novas tecnologias e sobre o que será feito com esses dados”, expressou, concordando com o Sadiq Khan.

Com base em sua experiência como prefeito de Toronto, Tory acredita que o setor público não consegue avançar sozinho em termos de tecnologia. O prefeito apontou que os governos “sabem fazer certas coisas muito bem”, mas as empresas detêm expertise, capacidade e recursos para investir. “Você não pode fazer as coisas devagar, mas precisa fazê-las com cuidado, especialmente quando estamos lidando com privacidade e dados”, concluiu.

*O Grupo AMANHÃ está presente em mais uma edição da Web Summit. A curadoria da cobertura tem a assinatura da BriviaDez com geração de conteúdo da Critério — Resultado em Opinião Pública.