“A era do escritório está acabando”

O futuro do trabalho reserva novidades e certas mudanças trazidas pela pandemia vieram para ficar, prevê cofundador da Slack

“Não podemos mais julgar a eficácia pelo tempo que os profissionais passam no escritório sentadas às suas mesas”, professou Cal Henderson

Entre as tantas alterações de hábito impostas pela pandemia, a nova forma de as pessoas trabalharem se destaca como uma das principais. Há quase 12 meses, profissionais ao redor de todo o mundo tiveram de se adaptar a um jeito bem diferente de exercer suas atividades, transformando suas casas em escritórios. Em alguns casos, a transformação ocorreu — literalmente — de um dia para o outro. Porém, assim que esse capítulo histórico da humanidade acabar, nem tudo será como antes. Na verdade, algumas mudanças vieram, sim, para ficar. Essa é a projeção de Cal Henderson (foto), cofundador e diretor de tecnologia da Slack, plataforma de comunicação interna para empresas.

“No começo de março, nós fechamos os escritórios cedo. Nossa primeira prioridade era a segurança dos funcionários. Mas, quando fizemos isso, parecia que era algo de curto prazo, que não ficaríamos assim por meses”, relatou o executivo, que fez uma comparação com os dias de nevasca, que forçam ajustes de rotina, mas passam, e tudo volta ao normal. “Se, um mês antes disso tudo, você me perguntasse se seria possível para grandes organizações se tornarem remotas, da noite para o dia, eu diria que não”, revelou seu ceticismo, ao demonstrar surpresa que muitas companhias fizeram essa transição mantendo o nível de produtividade.

Perdas e ganhos
Apesar da liberdade e flexibilidade proporcionadas pelo trabalho remoto, há algumas perdas significativas — e que são difíceis de superar — nesse modelo que foi adotado em massa nos últimos meses. O diretor de tecnologia destacou a falta das interações que acontecem num ambiente presencial. “As pessoas com quem você gosta de conversar no elevador ou sentar ao lado no almoço ou ter uma boa conversa. Ainda não conseguimos substituir esse lado leve do trabalho, trazido pelos relacionamentos”, afirmou para a plateia 100% on-line da Web Summit, nesta quarta-feira (2).

O executivo citou casos de colaboradores que entraram em novas empresas durante a pandemia. Eles interagem com seus colegas o tempo todo por mensagens via chat e em videochamadas no Zoom, mas nunca se encontraram pessoalmente. “Aí está uma área real de oportunidade para descobrir como podemos construir ferramentas para proporcionar esse tipo de socialização”, ressaltou Henderson.

E qual a saída para esse desafio que tem angustiado tantos trabalhadores — e tirado o sono de tantos empreendedores? A Slack tem promovido uma série de atividades sociais para integrar seu time e aliviar a pressão do dia a dia. Exemplos disso são atividades on-line como aulas de culinária e degustação de drinks, o que tem atraído uma boa adesão da equipe.

Indícios para o futuro
Mas como será quando a pandemia ficar para trás e as pessoas puderem retornar ao seu cotidiano presencial? Alguns insights podem ser tirados de uma pesquisa recente realizada pela Slack com quase 5 mil trabalhadores de diversos países. Um dado em especial chama atenção: apenas 12% dos profissionais querem trabalhar todos os dias no escritório, enquanto 72% pretende adotar um modelo híbrido — indo à sede da empresa somente alguns dias por semana, e o restante atuando de forma remota. “O que eles procuram é poder realizar atividades intensas de colaboração no escritório e focar no trabalho individual em casa”, analisou.

Ao ser questionado sobre as principais lições que o momento atual despertou, Henderson assinalou a mudança nas expectativas em relação às equipes. “As pessoas querem focar nos resultados que geram para as empresas, ao invés do tempo gasto. Não podemos mais julgar a eficácia pelo tempo que os profissionais passam no escritório sentadas às suas mesas. Esse é um jeito melhor de operar”, professou, acrescentando que esses aprendizados tornarão as organizações mais fortes.

Para o cofundador da Slack, já é possível ter indícios de como serão os próximos anos com base no que a população vive hoje. “Quanto mais tempo passamos por esse estado, mais sentimos que é o novo normal. E que ele irá, permanentemente, afetar o trabalho de todos após a pandemia”, analisou. Uma das grandes novidades, segundo ele, se dará no espaço profissional: “É claro que isso mudará nossa relação com o escritório no futuro. A era do escritório está acabando”. E concluiu: “A sensação de ir trabalhar mudará significativamente para sempre”.

*O Grupo AMANHÃ está presente em mais uma edição da Web Summit. A curadoria da cobertura tem a assinatura da BriviaDez com geração de conteúdo da Critério — Resultado em Opinião Pública.