MDB perde prefeituras mas mantém liderança; DEM cresce 73%, PT deixa top-10 e PSDB diminui



SÃO PAULO – As eleições municipais de 2020 provocaram mudanças na correlação de forças do jogo partidário em nível local, mas podem trazer sinalizações sobre o futuro das principais siglas no tabuleiro nacional.

Após a conclusão do pleito em 5.503 municípios e 7 capitais, o MDB mostrou que continua sendo a sigla com maior capilaridade, embora tenha perdido entre 267 e 255 prefeituras em comparação com 2016, dependendo do desfecho das disputas em segundo turno que participa. A sigla segue na disputa por sete capitais: Boa Vista (RR), Cuiabá (MT), Goiânia (GO), Maceió (AL), Porto Alegre (RS) e Teresina (PI).

O DEM aumentou em 72% sua quantidade de prefeitos eleitos, para 462, e passou a integrar o grupo das cinco siglas com mais cidades sob gestão, integrado, além do MDB (777), por Progressistas (682), PSD (652) e PSDB (519). Nas capitais, vale destacar a reeleição de Rafael Greca, em Curitiba (PR); de Gean Loureiro, em Florianópolis (SC); e a vitória de Bruno Reis, em Salvador (BA).

O partido, que ainda pode conquistar as prefeituras de Macapá (AP) – onde o pleito foi adiado  por problemas com o fornecimento de energia elétrica –, Rio de Janeiro (RJ) e outras sete cidades, roubou a posição do PSB no grupo de destaque. Os socialistas agora têm quase metade do número de prefeitura que conquistaram oito anos atrás e tentam manter o controle no Recife (PE).

“O DEM vinha se estruturando, cresceu sua bancada [no parlamento] em 2018, mantém a presidência das duas casas e, com as capitais vencidas e força maior [nas prefeituras], vai cumprindo o de fazer com que a força do partido seja escutada e tenha capital suficiente para tentar definir os rumos da candidatura de centro em 2022″, observa Paulo Gama, analista político da XP Investimentos.

“Já há vários movimentos nesse sentido, não se trata de definir que a candidatura sairá do DEM, mas pelo menos o partido ganha peso para discutir o que vai acontecer”, complementa. O especialista participou de live com o InfoMoney para comentar os resultados do primeiro turno. Ouça a íntegra pelo áudio no início da matéria.

Para o analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores, o DEM “sairá das urnas com a intenção reforçada de ocupar espaços mais importantes no cenário político nacional com vistas a 2022”. Com ou sem candidato próprio no pleito, o partido conhecido por ter importantes operadores dos bastidores da política agora tem a chance de assumir maior protagonismo.

Enquanto isso, a esperada redução no tamanho do PSDB após o crescimento de 15% na onda do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, aconteceu de forma significativa. O partido pode sair destas eleições com algo entre 266 e 280 prefeituras a menos do que quatro anos atrás, a depender do resultado do segundo turno.

Por outro lado, os tucanos têm a chance de sair com o maior número de capitais. Depois de conquistarem as prefeituras de Natal (RN), com Álvaro Dias, e Palmas (TO), com Cinthia Ribeiro, eles disputam o comando de São Paulo (SP), Porto Velho (RO) e Teresina (PI).

As eleições municipais deste ano também marcaram uma redução no nível de concentração dos municípios sobre os cinco partidos com mais prefeitos eleitos, hoje em 57%. Em 2008, quando o PT ocupava a terceira posição do grupo e o PSD ainda não havia sido criado, o percentual era de 65%.

Ainda neste grupo, o Progressistas (+38%) e o PSD (+21%) cresceram de forma significativa o número de prefeitos eleitos e diminuíram a vantagem dos emedebistas, ampliando a sombra sobre o partido que é conhecido como grande fiador das coalizões desde a redemocratização.

Em apenas três eleições o PSD, partido criado pelo ex-ministro Gilberto Kassab, saiu do zero para o top-3 em termos de controle dos Executivos locais. Um feito invejável dentro de um sistema partidário tão difuso e competitivo como o brasileiro.

No mesmo período, o PT saiu de 637 prefeituras para atuais 178. O partido do ex-presidente Lula já havia sofrido uma queda de 60% em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff, e agora foi ultrapassado pelo Republicanos (208), que dobrou de tamanho nestas eleições.

Com isso, a sigla deixou de ocupar a lista das dez maiores em termos número de municípios sob gestão – que ainda conta com PDT (311) e PSB (251). Neste segundo turno, os petistas ainda tentam eleger 15 representantes – sendo dois nas capitais Vitória (ES) e Recife (PE).

“O PT não conseguiu se recuperar da queda de 2016. Ao contrário do que previam os dirigentes do partido, retraiu-se um tanto mais na totalidade de prefeitos eleitos. Ademais, pesam contra o partido o fracasso da candidatura petista em São Paulo e a perda de espaço político para o PSOL na esquerda paulistana”, avalia Ribeiro.

“Em compensação, o PT deve avançar um pouco no conjunto das 95 maiores cidades do país. Em 2016, conseguiu eleger apenas um prefeito nesse grupo. Agora, 13 petistas disputam o segundo turno, dois em capitais. Se vencer nessas capitais, onde não parece favorito, e na maioria das demais cidades nas quais chegou ao segundo turno, os danos eleitorais serão parcialmente revertidos. Mesmo assim, novamente não foi uma boa eleição para o PT”, diz.

Mesmo assim, os resultados reforçam o risco de isolamento do partido e ganho de importância de outras siglas na esquerda. Neste segundo turno, PC do B, PDT, PSB e PSOL disputam em 15 cidades, sendo oito capitais: Aracaju (SE), Belém (PA), Fortaleza (CE), Maceió (AL), Porto Alegre (RS), Rio Branco (AC) e São Paulo (SP).

Eis o quadro partidário nas prefeituras e capitais ao final do primeiro turno:

Para Gama, o cenário atual é de acentuação da fragmentação na esquerda. “A ver como o PT se comporta com isso. O partido sempre trabalhou para ceifar candidaturas que pudessem minar sua força na esquerda. Foi assim com Ciro Gomes, a ver como será com Boulos”, diz.

Já Ribeiro acredita que o quadro no campo progressista ainda dependerá do resultado do segundo turno. Para ele, as atenções deverão se voltar ao PSOL, embalado pela ida ao segundo turno de Guilherme Boulos, em São Paulo (SP), e de Edmilson Rodrigues, em Belém (BA).

“Contudo, chama a atenção que o partido, por enquanto, elegeu apenas três prefeitos Brasil afora. Ou seja, ainda está muito longe de se consolidar como um partido de fato expressivo em âmbito nacional”, observa.

O especialista, porém, acredita que as eleições municipais têm condições reduzidas de antecipar as tendências para a corrida presidencial. Para ele, em termos nacionais, o pleito contribui fundamentalmente na construção de redes de apoios políticos que influenciam no desempenho das siglas na eleição para a Câmara dos Deputados dois anos depois.

A julgar pelos sinais do primeiro turno, diz o analista, nenhum partido ou grupo político emergirá das urnas qualificado como evidente força de oposição relevante contra Bolsonaro.

“Apesar do bom desempenho, o DEM, sozinho ainda não tem estrutura, nem nomes, para assumir esse papel. Os caminhos da oposição a Bolsonaro na esquerda, no centro e na direita – ou na combinação entre essas tendências – ainda precisam ser construídos até o início de 2022”, avalia.

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