Eleições municipais sinalizam moderação e esgotamento da conjuntura de 2018



Nas eleições de 2018, uma série de candidatos outsiders – entre eles o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e governadores de estados importantes como, por exemplo, Romeu Zema (MG), Wilson Witzel (RJ) e Carlos Moisés (SC), os dois últimos afastados do cargo após processos de impeachment – se elegeram sem estrutura partidária e tempo de TV, contrariando os prognósticos.

A partir daquele resultado, muitas avaliações passaram a sustentar que os chamados fundamentos tradicionais de campanha – comunicação orientada por profissionais, estrutura partidária e alianças robustas que garantam uma boa exposição no horário eleitoral – estariam esgotados e que seria possível vencer eleições abrindo mão deles e apostando na comunicação via redes sociais.

No entanto, essa leitura desconsiderou o aspecto principal do pleito de 2018. Conforme muito bem definiu o cientista político Juliano Corbellini e o economista Mauricio Moura no livro “Eleição Disruptiva – por que Bolsonaro venceu”, as eleições de dois anos atrás foram marcadas pelo componente de disrupção.

Diante da crise sistêmica que atingiu o sistema político, estabeleceu-se a polarização entre o que os autores definem como “o partido da Lava Jato” – expressão que define o movimento surgido na opinião pública que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) – e o Lulismo.

Embora outsiders eleitos em 2018 tenham o mérito de ter captado tal cenário, aquele modelo de campanha esteve muito mais ligado à conjuntura disruptiva do que a um esgotamento dos fundamentos tradicionais de campanha.

Aliás, importante registrar que o cenário de 2018 teve início em 2016, quando uma série de prefeitos com perfil de outsiders foram eleitos – João Doria (São Paulo), Alexandre Kalil (Belo Horizonte), Nelson Marchezan Júnior (Porto Alegre) e Marcelo Crivella (Rio de Janeiro). Embora Marchezan e Crivella não fossem outsiders em 2016, eles se apresentaram no pleito com tal narrativa.

Terminado o primeiro turno da eleição municipal deste ano, temos importantes sinais de que a conjuntura de 2018 caminha para o esgotamento. Entre os prefeitos eleitos ou reeleitos em primeiro turno – Alexandre Kalil (PSD) em Belo Horizonte, Marquinhos Trad (PSD) em Campo Grande, Gean Loureiro (DEM) em Florianópolis, Rafael Grega (DEM) em Curitiba, Bruno Reis (DEM) em Salvador, Álvaro Dias (PSDB) em Natal e Cinthia Ribeiro (PSDB) em Palmas – pertencem a grandes partidos e contaram com estrutura partidária e tempo de TV.

Das 18 capitais em que haverá segundo turno, totalizando 36 candidatos, apenas dois não tiveram tempo de TV ou estrutura partidária no primeiro turno. Esse é o caso do Delegado Federal Eguchi (Patriotas), que teve apenas 18 segundos no horário eleitoral na disputa em Belém, e Guilherme Boulos (PSOL), que contou com apenas 17 segundos em São Paulo.

Em relação a campanha de Boulos, algumas considerações são importantes. Chegar ao segundo turno na maior capital do país praticamente sem tempo de TV e por um partido com pouca estrutura é uma conquista importante.

Isso foi possível porque Boulos, assim como Bolsonaro em 2018, não entrou nas redes sociais “aos 45 minutos do segundo tempo” como outros candidatos que apostaram nas mídias digitais.

Guilherme Boulos possui uma militância digital orgânica, com grande capacidade de mobilização. Isso sem falar no recall de ter sido candidato à Presidência da República, ter uma ativa participação nas redes sociais, o que garantiu ao candidato do PSOL engajamento, transformando principalmente o WhatsApp em uma espécie do que foram os comitês partidários há alguns anos.

Através do WhatsApp, a campanha de Boulos disseminava conteúdos para sua militância. Nesses grupos, havia atividades diárias e compartilhamentos de conteúdo de campanha (áudios do próprio candidato, matérias, prints, etc). Ou seja, Boulos trabalhou com o conceito de campanha permanente, conseguindo compensar seu pouco tempo de TV através de sua constante presença nas redes.

A importância do tempo de TV e estrutura partidária nessas eleições municipais combinado com esse case de Boulos são exemplos de como funciona a comunicação na chamada era da convergência, onde as campanhas passam ao mesmo tempo pela TV e nas redes sociais, a partir da popularização dos smartphones e aplicativos.

Esses modelos de comunicação não são excludentes como alguns equivocadamente pensaram em 2018. E há ainda o rádio, que não deve ser esquecido, sendo ainda uma importante ferramenta de comunicação com o eleitor.

Outro aspecto interessante destas eleições municipais é a reaproximação dos polos, o que pode ser atribuído principalmente à pandemia do coronavírus e o cenário de agravamento da crise econômica decorrente da Covid-19, o que levou o eleitorado das capitais e grandes centros urbanos a buscarem candidatos com perfil mais moderados e experientes.

Este enfraquecimento da polarização está muito ligado à pandemia, conforme mostra a pesquisa acadêmica realizada pelos cientistas políticos Carlos Pereira, Amanda Medeiros e Frederico Bertholini, que detectou uma migração os eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018 para o centro em busca de moderação.

Não foi por acaso que partidos como DEM, PSDB, MDB, PSD, PP, ganharam espaço. Mais do que isso, em capitais estratégicas como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador, quem despontou foram candidatos de centro com perfil moderado: Bruno Covas (PSDB), Eduardo Paes (DEM), Alexandre Kalil (PSD) e Bruno Reis (DEM).

O maior prejudicado com a quebra da polarização é o bolsonarismo. Não é por acaso que dos candidatos apoiado por Jair Bolsonaro nas capitais, apenas o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), chegou ao segundo turno. Além do enfraquecimento da polarização, joga contra o presidente a avaliação negativa do governo nas capitais, que foram um reduto do bolsonarismo em 2018.

O PT também perde com o cenário menos polarizado nas capitais. Dos candidatos petistas, apenas João Coser em Vitória e Marília Arraes em Recife chegaram ao segundo turno. Embora Manuela D’ Ávila (PCdoB) tenha o apoio do PT e esteja no segundo turno em Porto Alegre, isso se deve mais ao prestígio de Manuela.

Outro aspecto importante das eleições municipais foi a tendência ao continuísmo. Dos 13 prefeitos que concorrem à reeleição nas capitais, 5 foram reeleitos em 1º turno. E 7 disputam o segundo turno. Apenas o prefeito Nelson Marchezan Júnior, em Porto Alegre, foi derrotado já no primeiro turno.

Além de busca por candidatos mais moderados, o mercado eleitoral demanda também políticos com experiência, principalmente devido ao complexo cenário que combina o medo da pandemia – o risco de uma segunda onda – com a crise econômica, principalmente o elevado desemprego, o que gera muita insegurança.

Mesmo que eleições municipais sejam mais centradas em temas locais, elas também são influenciadas pela conjuntura nacional. Olhando para o resultado das urnas no primeiro turno, temos sinais importantes do esgotamento da conjuntura de 2018, marcada por um forte viés ideológico, agenda e costumes e anti-corrupção. Embora esses temas continuem presentes no debate público, eles perdem espaço para temas como saúde, economia e emprego, por exemplo.

Essa mudança de prioridades na agenda também contribui para enfraquecer a polarização e reaproximar os polos. Outro aspecto é a eleição de Joe Biden nos EUA. O futuro presidente norte-americano sinaliza com uma agenda centrista, focada em temas como o combate a Covid-19, questão ambiental, etc. Mesmo que cada país tenha sua conjuntura, e o que acontece em uma nação não necessariamente se reproduz em outra, os movimentos de Biden para tentar quebrar a polarização poderá repercutir no cenário global.

Este esgotamento da conjuntura de 2018 mostrado pelo primeiro turno das eleições municipais levará a necessidade de uma reinvenção tanto do bolsonarismo quanto do lulismo, pois há um movimento de reaproximação dos polos em direção ao centro.

Isso não significa que o debate ideológico desaparecerá. Porém, ele ficará num plano secundário e será bem menos intenso que em 2016 e 2018. Com novos ventos soprando na política brasileira, quem ficar preso a conjuntura dos últimos anos tende a ter dificuldades.

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