O que o Brasil pode perder ao tomar partido na guerra do 5G entre China e EUA

SÃO PAULO – Há algum tempo, os experts em tecnologia falam do dia em que os eletrodomésticos estarão conectados à internet, carros autônomos transitarão pelas ruas, as cidades serão inteligentes e um médico poderá operar uma pessoa à distância controlando um robô. Para que tudo isso de fato se torne realidade, é preciso uma rede de telecomunicações 5G.

O 5G é a quinta geração da tecnologia de transmissão de dados digitais e vai suceder o 4G. É o que criará as bases para o uso pleno de tecnologias digitais como a internet das coisas, os drones, a robótica avançada e inteligência artificial. Para as indústrias, significa o uso pleno do conceito Indústria 4.0. Ou seja, trata-se de um tema de extrema relevância para pessoas e empresas.

Enquanto muitos países já estão montando a infraestrutura 5G, o Brasil se vê em meio a uma discussão diplomática que pode comprometer o desenvolvimento tecnológico do país.

Os principais atores de uma disputa que é, ao mesmo tempo, econômica e geopolítica são os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão, de um lado, e a China, do outro.

Em resumo, eis o cenário: o governo americano lidera uma cruzada global para impedir a Huawei, empresa chinesa de telecomunicações, de fornecer equipamentos para a instalação das redes de 5G dos países. A alegação oficial é que a Huawei faz espionagem e acessa dados sigilosos por meio de seus equipamentos.

O receio é que, na hipótese de uma guerra que coloque países do Ocidente contra a China, o governo chinês se valha da infraestrutura da Huawei para sabotar sistemas de transportes, de transmissão de dados ou eletricidades dos países inimigos.

“Como amigos e parceiros do Brasil, alertamos o país sobre os fornecedores não confiáveis da rede do 5G. As nossas preocupações são com a segurança, direitos de propriedade intelectual e com a privacidade”, informou, em nota, a Embaixada dos Estados Unidos ao InfoMoney. A Huawei, obviamente, nega. Diz que é uma empresa privada, que tem como função gerar lucro aos controladores e valor aos clientes. Onde está a verdade? Hoje, impossível dizer.

O pano de fundo dessa disputa é econômico. Como foi dito acima, o 5G é fundamental para o desenvolvimento das economias nas próximas décadas. O potencial de geração de riqueza é imenso e gira na casa dos trilhões de dólares. Quem dominar as tecnologias para a criação e gestão das redes terá um mercado imenso. E é aí que entram, ainda que discretamente, a União Europeia e o Japão como aliados dos americanos.

A Huawei é apontada por diversos especialistas como a empresa hoje mais bem posicionada para capturar a maior parte do valor das redes de 5G. E a substituição do 4G abre uma oportunidade para empresas europeias, japonesas e americanas. “Enfraquecer a Huawei é do interesse de algumas das maiores economias do planeta, que querem abrir espaço para empresas locais”, diz, em caráter de confidencialidade, uma fonte do setor.

É por isso que, cada país que anuncia a implantação do 5G vê a discussão sobre o banimento da Huawei se impor – junto com a pressão e as acusações do governo americano.

Agora é a vez do Brasil. Quando finalmente damos sinais claros de implantação da rede, as atenções do mundo se voltam para nós. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) trabalha para realizar o leilão das faixas do 5G no primeiro semestre de 2021, em abril ou maio. As faixas são como estradas, a quilômetros da superfície, pro onde vão transitar os dados (como um vídeo que chega ao seu smartphone).

Em outubro, uma delegação dos Estados Unidos desembarcou em Brasília para pressionar o governo pelo banimento da Huawei. Em troca, acenou com US$ 1 bilhão em financiamentos para projetos na área de energia, infraestrutura e telecomunicações. Em conversa com empresários, o conselheiro de segurança dos Estados Unidos, Robert O’Brien, disse que a empresa chinesa poderá ter acesso a informações estratégicas de empresas e do governo.

No mês passado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recomendou ao Brasil não restringir a competição entre os fornecedores da tecnologia do 5G. “É importante organizar cuidadosamente o leilão de 5G para que ele garanta mercado competitivo”, afirmou o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

Mas os últimos movimentos do governo indicam que o apelo da OCDE não deve ser ouvido. Na última terça-feira (10), o secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas, Pedro Miguel da Costa e Silva, anunciou o apoio do governo brasileiro à Clean Network (Rede Limpa), iniciativa americana que visa limitar o avanço de empresas chinesas na instalação do 5G.

Segundo o jornal O Globo, após o anúncio da adesão do Brasil ao programa, a Huwaei começou a preparar uma ofensiva na Justiça contra a ameaça de ser excluída do leilão do 5G. A empresa já teria contratado um escritório especializado, com atuação em Brasília, para se preparar para um cenário de litígio.

A pergunta que se faz é: o que deve fazer o Brasil? E de que forma o banimento ou não da Huawei pode afetar a implantação do 5G no país?

O impacto da baixa competição: preços mais altos

Hoje, a tecnologia usada em redes de transmissão de dados e voz é dominada globalmente por três multinacionais: a Ericsson, a Nokia e a Huawei. Ou seja, é um mercado restrito. No Brasil, não há dados oficiais sobre o market share de cada empresa. Mas especialistas no setor estimam que a participação seja relativamente equilibrada, com leve vantagem para os chineses, embora, em São Paulo, a Ericsson tenha participação predominante.

Por isso, muitos temem que a exclusão da Huawei diminua a competição, o que tende a elevar os preços dos produtos (é a velha lei da economia de demanda e oferta). “Restringir a participação de qualquer empresa significa diminuir a competição e vai contra os interesses do país”, diz Paulo Tavares, especialista em 5G da Accenture.

As operadoras, que em última instância serão as responsáveis pela implantação do 5G no país, concordam. “Racionalmente, quanto mais opções para negociar, melhores os preços para a implantação da rede”, diz Marcio Carvalho, diretor de Marketing da Claro.

Carlos Roseiro, diretor de Soluções Integradas da Huawei Brasil, diz que os equipamentos da Huawei são mais eficientes do que os dos concorrentes e, portanto, teriam melhor preço. “Se, em um mercado com três players, tira-se um, a queda da concorrência aumenta os custos”, diz. “E, quanto mais alto o custo, mais lento será o processo de implantação do 5G no país.”

As duas maiores concorrentes, a finlandesa Nokia e a sueca Ericsson, apresentam argumentos diferentes. “A banda larga móvel na China é duas vezes e meia mais cara do que no Brasil e boa parte das fornecedoras são empresas chinesas”, diz Wilson Cardoso, CSO da Nokia. “Isso desmistifica a ideia de que não ter fabricantes chinesas vai encarecer o 5G no país.”

Eduardo Ricotta, presidente da Ericsson no Cone Sul da América Latina, diz que a empresa está há 20 anos no Brasil e tem participação relevante no mercado. “Temos tecnologia de ponta e preço para competir.”

Um estudo da Oxford Economics, encomendado pela Huawei, mostrou que restringir a participação de um fornecedor na construção da rede de 5G pode aumentar o custo de implantação de 8% a 29%. O estudo analisou oito países, entre eles Estados Unidos, Índia, Japão e Alemanha. Além de encarecer o investimento, a restrição à competição reduziria o PIB per capita em US$ 100 por pessoa, em média, até 2035, na comparação com o cenário de concorrência irrestrita.

Como aumentar a competição

O banimento da Huawei no país não irá, necessariamente, limitar a competição à Nokia e Ericsson. Para fomentar um ecossistema com mais participantes, as operadoras brasileiras podem adotar um modelo chamado OpenRAN (acrônimo que significa, em tradução literal, rede de acesso de rádio aberta).

No OpenRAN, equipamentos e softwares de fabricantes diferentes são compatíveis entre si. No modelo anterior, que vale para as tecnologias 2G, 3G e 4G, o sistema inteiro pertence à uma mesma empresa.

O efeito do OpenRAN no setor de telecomunicações seria parecido com o que houve na indústria de informática, há algumas décadas. Quando as máquinas e softwares não conversavam entre si, o mercado era dominado por poucas empresas, como a IBM.

A partir do momento em que as máquinas e softwares de fornecedores diferentes ganharam compatibilidade, a competição floresceu. O resultado foi um crescimento sem precedentes da computação – e todas as inovações que transformaram a vida de pessoas e empresas. “O OpenRAN permite o surgimento de novos fornecedores, aumentando a competição”, diz Leonardo Capdeville, CTIO da TIM Brasil.

E o que fazer com a rede existente da Huawei?

O banimento da Huawei pode causar uma situação delicada: o que fazer com a infraestrutura chinesa instalada?

Em entrevistas recentes, o presidente da Huawei no Brasil, Sun Baocheng, disse que esse imbróglio poderia retardar em até quatro anos a implantação do 5G. Isso porque a troca dos equipamentos instalados nas redes das operadoras levaria tempo para ser feita. Também haveria impactos financeiros para as operadoras, que seriam obrigadas a comprar novas máquinas.

“Se as operadoras tiverem que retirar os nossos equipamentos, seria quase metade da infraestrutura de telecomunicações do país”, diz Roseiro, da Huawei. É difícil estimar o custo dessa troca.

De todo modo, o aproveitamento de todo o potencial que o 5G oferece exige redes “stand alone”, que hoje ainda não existem no país. Ou seja, é uma infraestrutura que está para ser instalada. Para diminuir os eventuais prejuízos, basta às operadoras aguardar a decisão do governo brasileiro para, só então, expandir a rede sem correr o risco de perdas. É isso que as operadoras têm sinalizado.

Outros entraves

A participação ou não dos chineses é apenas um dos possíveis obstáculos à implantação eficiente do 5G no país. Dois entraves são o modelo do leilão e a velha burocracia. O principal receio de todos os players é que o governo aproveite o leilão para fazer caixa, ou seja, cobrar das operadoras pelo uso das frequências e embolsar o dinheiro.

No modelo defendido pelas operadoras e pelas empresas fornecedoras, a concessão dos espectros é dada em troca de compromissos para investimentos na criação e expansão da rede. “É fundamental que o leilão não tenha viés arrecadatório, mas de incentivo ao investimento”, diz Leonardo Capdeville, CTIO da TIM Brasil.

Segundo Capdeville, se isso ocorrer, enfraquecerá o caixa das empresas, que perdem força para investir na expansão do 5G. “Ao acelerar a implantação da rede, o governo colhe os benefícios para a economia, que inclui a arrecadação de impostos.”

Um outro ponto relevante são as leis municipais sobre a instalação de antenas. A implantação do 5G vai demandar muito mais antenas do que no 4G – podendo chegar a até três vezes mais, dependendo da região. “As regulações brasileiras são burocráticas e podem atrasar a chegada do 5G à população”, diz Tavares, da Accenture.
Capdeville, da TIM, diz que, num cenário otimista, é possível crer que em 2022 o país comece a ver a implantação da rede 5G e em três anos a cobertura pode chegar a 50%. Caso o modelo do leilão seja parecido com o do 4G, a expectativa sobe para seis anos.

O custo do atraso

Um estudo da Ericsson mostrou que o potencial de receitas para as operadoras brasileiras com o 5G é de R$ 332 bilhões acumulados até 2030. O ganho será ainda maior para o setor produtivo brasileiro. Um estudo feito pela consultoria Omdia a pedido da Nokia mostrou que a chegada do 5G pode adicionar US$ 1,2 trilhão ao PIB entre 2021 e 2035. Os seis setores mais impactados são: tecnologia da informação e comunicações (US$ 241 bilhões), governo (US$ 189 bilhões), indústria (US$ 181 bilhões), serviços (US$ 152 bilhões), varejo (US$ 88 bilhões) e agricultura (US$ 76 bilhões).

Para a captura desse valor, agilidade na expansão do 5G é fundamental. “Quanto mais se posterga a implementação do 5G, mais se posterga o impacto econômico”, diz Cardoso, da Nokia. Mas talvez os maiores ganhos ainda sejam impossíveis de serem mensurados: é o ganho advindo de inovações que, hoje, ainda não foram criadas.

Quando o 4G foi criado, quem previu que ele permitiria o desenvolvimento da economia compartilhada e o surgimento de empresas como a Uber e o Airbnb, que geram bilhões de dólares em riquezas? “O impacto financeiro do 5G é imensurável e as possibilidades são muito maiores do que no 4G”, diz Ricotta, da Ericsson. “E só vamos descobri-las com a chegada do 5G”.

Qual é o cenário ideal? Que o Brasil consiga se ver livre de tomar uma posição – e não restrinja o mercado. Ao fazer isso, poderá colocar as empresas brasileiras numa posição privilegiada de competitividade global. “Se nosso mercado for aberto, as companhias terão à disposição as melhores inovações, inclusive as da Huawei, o que as colocaria numa posição de vantagem em relação às empresas de países que baniram a tecnologia chinesa”, diz uma fonte do setor.

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