Os dilemas que apertam o calo da indústria calçadista

Presidente da Assintecal revela em entrevista que, se por um lado o dólar valorizado oferece maior competitividade nas exportações, a alta generalizada dos insumos joga contra

“Haverá um repasse para o consumidor, mas não será possível incorporar todos os aumentos de custos”, diagnostica Berwanger

Pelos próximos dois anos, Gerson Luis Berwanger (foto) será o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal). Ao lado da diretoria executiva formada por 13 empreendedores que lideram algumas das maiores empresas do setor, ele terá o desafio de trabalhar para fortalecer a exportação de componentes e ampliar o portfólio de serviços da entidade.

Presidente da Bertex Produtos para Moda, que atua há 14 anos no mercado, Berwanger tem 54 anos e trabalha na área desde os 12. Nesta entrevista ao Portal AMANHÃ, ele fala sobre a falta de matérias-primas e o impacto da valorização do dólar na cadeia calçadista. Também avalia o desafio de assumir a gestão em um momento delicado para o setor e para a economia global e brasileira.

Como a Assintecal está tratando a falta de insumos, propagada por diversos ramos da indústria?
Primeiramente, fizemos um amplo levantamento junto aos associados dos materiais que estavam faltando. Diversas reuniões foram organizadas com fornecedores e suas associações para verificar se haveria soluções à vista. Levantamos 48 materiais que estavam em desabastecimento, em função das altas de preços. Nessas reuniões, foram discutidas várias possibilidades, encontradas algumas soluções, mas, principalmente, verificou-se que o problema era pontual e não estrutural. A cadeia produtiva estava completamente desestruturada e levaria algum tempo para adequar-se. Esse entendimento entre os setores foi muito importante para todos.

O senhor pode nos dar uma referência das maiores variações das matérias-primas do setor?
Essa é uma pergunta bastante difícil de responder, pois as variações de preço são diárias e, sobretudo, por esses insumos terem os preços dolarizados. A alta da moeda norte-americana fez com que as altas se acentuassem, e o mais grave é que não existe disponibilidade de mercadoria.

A cadeia calçadista, na sua visão, repassará o reajuste ao consumidor final?
Sim, haverá um repasse para o consumidor, mas não será possível incorporar todos os aumentos de custos — pois onde houve um maior consumo foi exatamente na classe C, que tem como maior atrativo da compra o preço.

Como esse impacto da falta e da valorização dos insumos, aliado ao fator-dólar, vai impactar no ramo calçadista brasileiro?
Existem dois impactos. Um positivo, que é uma maior competitividade nas exportações; e um negativo, que é a alta generalizada dos insumos.

O senhor teme que esse cenário atinja a competitividade do setor?
Certamente haverá impactos em toda a cadeia, que já prevê uma queda de 32% de produção este ano. E, mesmo em um cenário otimista, prevê-se que no próximo ano a nossa produção somente recupere uma parte dessas perdas.

Por outro lado, o dólar alto tem ajudado quem exporta calçados e, também, seus artefatos. As associadas da Assintecal podem contar com isso para amenizar o atual cenário?
As empresas que fazem parte do programa ByBrasil Components, Machinery and Chemicals [realizado pela Assintecal, Apex-Brasil e Abrameq, com o objetivo de ampliar as relações comerciais dos fabricantes brasileiros com o mercado externo, oferecendo soluções adequadas a cada nível de internacionalização e mantendo ao alcance das empresas ações de promoção comercial, inteligência, capacitação, entre outros] certamente terão oportunidades maiores em exportar tanto pela valorização do dólar, como também pela paralisação das indústrias de outros países.

A Assintecal pedirá ao governo federal alguma ajuda para o setor?
As solicitações que encaminhamos ao governo são feitas sempre setorialmente, unindo as associações do setor para que sejam vistas. Essa unidade trata de questões e problemas e também dos benefícios advindos.

A manutenção da desoneração da folha dá certo alívio ao setor ou não o tira da UTI?
A desoneração do setor é uma importante conquista que beneficia a todos. Nesse momento em que o emprego é uma medida que devemos ter em mente, a desoneração da folha é não só um alívio como um incentivo para sua manutenção.

O senhor assume justamente em um momento delicado para o setor e para a economia global e nacional. Como o senhor pretende enfrentar tantas barreiras em conjunto?
Com muito trabalho em conjunto, parcerias e investimentos em inovações, sustentabilidade e design para diferenciar nossos produtos.