“A ceia de Natal vai ficar mais cara”

Em entrevista ao Portal AMANHÃ, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal diz que preços do milho e da soja subiram em patamares “fora do razoável”

Apesar da inflação de custos, Ricardo Santin vê boa perspectiva para a indústria de carnes no mercado asiático e aposta no êxito do acordo Mercosul-União Europeia

Idealizador da estratégia setorial de fortalecimento das exportações, Ricardo Santin assumiu a presidência da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) em agosto com o discurso de que sua missão é manter o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional de aves e suínos empreendido pelo ex-ministro da agricultura Francisco Turra. Ao lado do “mestre e amigo”, Santin está há 12 anos na associação e já se depara, neste início de mandato, com um desafio – o enfrentamento de uma subida generalizada nos preços do milho e do farelo de soja – insumos essenciais para o setor.

Nesta entrevista exclusiva ao Portal AMANHÃ, Santin revela sua preocupação com a consequente queda na produção de frangos e o repasse de preços ao consumidor. “Infelizmente, a ceia de Natal vai ficar mais cara em razão dos preços do milho e da soja que subiram em patamares fora do razoável”, alerta. Ele também trata dos custos “silenciosos” que as empresas tiveram de assumir para manter a produção enquanto o Brasil vivia o período de isolamento social. Ainda assim, Santin se descreve como um otimista incontestável. Não sem razão, ele vê boas perspectivas para o segmento no continente asiático e também aposta que o acordo Mercosul-União Europeia será fechado.

Qual seu nível de preocupação com as altas recentes do milho e da soja e a inevitabilidade do repasse ao consumidor?
Estamos vivenciando neste momento dois problemas que, em boa medida, interpretamos como algo especulativo, pois os insumos sofrem uma espiral inflacionária descolada da realidade. Temos acompanhado nos últimos trinta dias uma valorização das matérias-primas muito baseada em expectativas de preços. Está caro, mas não estamos vendo efetivas vendas no mercado futuro. E a bolsa, como sabemos, sobe no boato e realiza no fato. Por isso, este é um ponto que, nesta avaliação, precisamos separar. Algumas mudanças estruturais aconteceram, é claro, como o aumento das exportações regulares de milho e, também, a alta do consumo interno do grão para proteína animal, mas a previsão é de uma colheita muito maior. Até agora, porém, são 4 milhões de toneladas a menos sendo exportadas. Quem tem milho não está querendo disponibilizar. A Conab, por outro lado, já avisou que não vai faltar. Esse novo cenário forçará a cadeia de proteína animal a se adiantar ao ter de ir às compras com maior antecipação. Por isso, é importante obter dados sobre [estoques previstos para] a safra 2021-2022. Defendemos que o Brasil precisa ter algo que os Estados Unidos já têm – um controle sobre informações. Os produtores informam ao governo e, com isso acontecendo, o mercado saberá fazer a leitura e, então, adiantará suas compras de insumos.

A eliminação da tarifa de importação zerado ajudou de alguma forma?
Ela criou mais uma alternativa, pois agora podemos importar. Facilitou, embora o dólar esteja valendo agora muito mais do que na época em que a medida foi tomada. Essa volatilidade até pode ser boa se a moeda norte-americana cair para patamares anteriores. Acho que isso pode tornar a importação viável e me parece que esse efeito da tarifa já está funcionando, pois empresas já estão começando a trazer soja para o Brasil, por exemplo.

Haverá mesmo redução na produção de frangos ou o consumidor brasileiro pode se tranquilizar?
Está havendo diminuição de produção, pois há descarte de matrizes ou redução do peso do frango ou suíno [para abate] em razão do aumento dos preços do milho e da soja. Como as expectativas das empresas não estão se cumprindo, pois tinham um orçamento para compra de insumos e agora serão obrigadas a pagar mais por menos, terão de reduzir. E nenhuma empresa consegue facilmente [tomar empréstimo de] R$ 50 milhões, inclusive porque já pode ter garantias comprometidas com dívidas já assumidas anteriormente. Estávamos nos preparando para elevar a produção prevendo aumento do consumo no final do ano. Esperávamos que o brasileiro iria consumir mais depois de um ano de pandemia. Queríamos vender muito nesse momento de festa. Porém, com o repasse deste aumento de custos ao consumidor, ele não vai querer comprar. Por isso devemos, sim, ter diminuição na produção, mas não sabemos precisar quanto exatamente. Ouvimos algumas companhias afirmarem que a produção cairá algo em torno de 15%. Até mesmo produtores independentes ou não integrados de ovos, por exemplo, vão ter de arcar com um custo maior para reposição de estoques de grãos. Infelizmente, a ceia de Natal vai ficar mais cara em razão dos preços do milho e da soja que subiram em patamares fora do razoável.

Quais são os desafios envolvendo outros custos em meio à pandemia?
Existem alguns custos silenciosos que as indústrias tiveram por produzir durante a pandemia. Duas grandes empresas do setor tiveram de investir cerca de R$ 200 milhões para triplicar o transporte, quadruplicar o número de desinfecções que já eram habituais nas fábricas, trocar com maior frequência os Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs), sem contar que, mais recentemente, materiais como embalagens de papelão e plástico estão tendo seus preços reajustados. O polietileno produzido no Brasil, por exemplo, é duas vezes mais caro do que aquele fabricado na Tailândia.

Com todo esse cenário, o setor está conseguindo manter a competitividade?
Estudos recentes de competitividade revelam que nos últimos 20 anos o setor trouxe para o Brasil, via exportação de seus produtos, mais de US$ 140 bilhões. É algo como meio trilhão de reais nas contas de hoje. É um valor importante. É dinheiro distribuído para uma cadeia de mais de 4 milhões de pessoas e que gera aproximadamente 500 mil empregos. Infelizmente, estamos perdendo isso. Por isso é que apoiamos as reformas, principalmente a tributária, juntamente com os demais setores do agronegócio. Também esperamos que o governo mantenha a desoneração da folha e que faça a reforma administrativa. Temos urgentemente de melhorar a logística. Há um atraso na implantação da ferrovia Centro-Oeste-Sul, que ajudará na integração das duas regiões para o transporte de proteína animal. Temos de melhorar nosso perfil para mantermos o protagonismo internacional que conquistamos.

O projeto Brasil 500K [plano para ter um volume médio mensal de exportações de 500 mil toneladas de carnes de frango e de suíno até 2020] foi afetado de algum modo pela pandemia?
Foi. Devemos chegar perto este ano, mas executaremos de vez em 2021. Além dessa segunda onda do coronavírus na Europa, dois grandes mercados foram afetados pela pandemia: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes. Ambos diminuíram seus pedidos por causa da queda do turismo. Isso dificultou bastante o alcance da meta.

A propósito, qual é a importância da Ásia para a cadeia da carne brasileira?
Hoje é o nosso maior importador de aves e suínos. No caso de aves, representa mais de 30%. Suínos, mais de70%. E há previsão de que o continente asiático continue tendo esta importância na nossa pauta exportadora. A China, principal importadora, vai sofrer com a peste suína africana, e continuará a ter uma demanda interessante até 2024-25. Há um plano do Conselho de Estado chinês, inclusive, para fazer a China ser autossuficiente em carne suína, ou seja, ter praticamente 95% produzido lá – algo como 52 milhões de toneladas. Mesmo assim, ainda sobram cerca de 3 milhões de toneladas [o equivalente aos 5% restantes] que podemos enviar para a China. Há espaço ainda para crescer na Ásia, sem contar a abertura dos mercados de México e Canadá, além do acordo de livre comércio entre Europa e Mercosul.

O acordo Mercosul-União Europeia não se torna mais difícil diante das recentes discussões sobre a Amazônia e a política ambiental brasileira?
Isso atrapalhou o ritmo de andamento das coisas, mas não vai criar obstáculo para o acordo. Sou otimista com o fechamento do acordo. Eu sempre procuro ver o copo mais cheio. A própria ministra [da Agricultura] Tereza Cristina, junto com o governo federal, garantiu que vai sair. Na Europa tem alguns países que são mais vocais e utilizam o meio ambiente como justificativa. Porém, muitos outros países europeus têm interesse na implantação do acordo e é esse o sentido que esperamos. Não sei se existe algum país no mundo que preserve tanto, pois a cada hectare utilizado para produzir são reservados dois hectares e meio para preservação. Incêndios ilegais, grilagem e desmatamento irregular são ações de alguns poucos que causam um estardalhaço desproporcional. A cadeia de proteína animal está fora do bioma amazônico, não há envolvimento direto, mas independentemente disso, trabalhamos pela sustentabilidade. O Conselho Mundial de Avicultura assinou um compromisso setorial global com as práticas ambientais e sustentáveis propostas nos Objetivos de Desenvolvimento sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). São cinco objetivos, entre eles o Fome Zero, todos sendo mapeados e com a participação ativa das empresas do setor. Estamos fazendo uma campanha internacional pelo alimento sustentável, inclusive voltada para a Europa onde apresentamos documentos. Também já trouxemos mais de 50 jornalistas do exterior para conhecerem o nosso Projeto Imagem onde listamos nossas ações ambientais. Somos transparentes, sim, mas devemos comunicar ainda mais para não deixar que surjam falsas impressões.

A cadeia da produção animal foi resiliente na pandemia. Chegou, inclusive, a contratar. Passada a pandemia, o que se pode esperar das empresas associadas da ABPA?
Nós nos recuperaremos com maior velocidade em relação aos nossos concorrentes internacionais. Acabamos sendo resilientes pelo fato de a cadeia de proteína animal ter a missão, atribuída pelo governo federal, de produzir comida para o brasileiro. Já nascemos com esse espírito em nosso DNA, o de garantir a segurança alimentar do nosso país. Ao redor do mundo são mais de 160 nações que confiam no que fazemos no Brasil. Respondemos à chamada e mantivemos a produção graças, também, aos corredores internos que abasteciam as fábricas com insumos. Também foi preciso afastar aqueles trabalhadores maiores de 65 anos, que faziam parte do grupo de risco. E com o abastecimento do mercado interno e também com a continuidade das exportações, foi preciso contratar mais empregados. A produção na Europa e Estados Unidos devem cair cerca de 1%, enquanto aqui no Brasil avançaremos 3%, o que levou à abertura de vagas. O FMI já prevê que o Brasil crescerá 3,5% no ano que vem e nossas empresas estão muito bem preparadas para dar conta desse cenário que se avizinha. Notamos certa migração do consumo brasileiro para aves e suínos, proteínas mais acessíveis que a carne bovina que ficou mais cara. Por tudo isso, há os melhores prognósticos possíveis para estarmos muito melhores em 2021. Mas será importante contar com a desoneração da folha de pagamento, pois é um imposto que nos faz perder competitividade lá fora.

Como você pretende dar continuidade ao trabalho que o ex-presidente da ABPA, Francisco Turra, desenvolveu ao longo dos últimos 12 anos?
Fui eleito por força dessa proximidade com o Turra. Ele presidirá o conselho consultivo e seguirá colaborando na mesma linha que trouxe a ABPA até aqui, de modo que possamos continuar nesse caminho de crescimento consistente. Ele também se preocupou em fazer muito bem essa passagem quando eu exercia o cargo de executivo da associação. Pretendo manter a mesma linha de dar protagonismo ao setor, simplificando [processos] e fortalecendo a imagem das proteínas brasileiras. Tenho percebido que o setor está mais fortalecido. O alimento está sendo mais valorizado pelas pessoas nesta situação de pandemia. É difícil se igualar ao Turra, mas com humildade seguirei aprendendo com o exemplo do mestre e amigo que ele é. Tentarei me aprimorar o máximo possível, como fiz nos últimos 12 anos.