O que as eleições municipais trazem de sinalizações para a corrida presidencial de 2022?



SÃO PAULO – Faltam apenas sete dias para o primeiro turno das eleições municipais. Além do importante papel na definição dos rumos de 5.570 cidades brasileiras pelos próximos quatro anos, o pleito pode indicar tendências nacionais a partir dos movimentos locais de partidos e lideranças políticas.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ao todo foram apresentados 553.837 pedidos de candidaturas por 33 partidos políticos. No total, são 515.309 postulantes às câmaras municipais e 19.171 às prefeituras, sendo, respectivamente, 4% e 9% à reeleição.

Embora as realidades locais sobressaiam nas disputas – sobretudo nos municípios de menor porte –, eleições municipais podem servir de laboratório para aproximações políticas e indicar caminhos estudados por lideranças para 2022 e ainda apontar tendências para o comportamento e as preferências dos eleitores.

Este foi um dos assuntos do podcast Frequência Política. programa é uma parceria entre o InfoMoney e a XP Investimentos. Ouça a íntegra pelo player acima.

Veja algumas possíveis sinalizações apontadas pelos analistas:

1. Horizontes para Bolsonaro
O presidente Jair Bolsonaro decidiu não participar de forma tão ativa nas disputas municipais. É a primeira vez desde a redemocratização que o chefe do Poder Executivo não está filiado a nenhum partido político durante eleições nas cidades.

Por um lado, a postura reduz o potencial desgaste decorrente de arranjos necessários para acomodar os múltiplos interesses de grupos da base. Por outro, o mandatário corre riscos de ficar sem importantes palanques para o pleito nacional em 2022.

“Muito se fala que eleições municipais são eleições para síndico, que têm uma lógica muito específica e localizada. Mas, no final das contas, podemos projetar isso para algo mais amplo. Um candidato à presidência precisa ter palanques fortes, principalmente em capitais importantes. Estamos vendo acontecer o contrário com Bolsonaro nessas eleições municipais”, observa Júnia Gama, da XP Política.

“Em 2018, ele foi o mais votado em cerca de 20 capitais e agora não consegue trazer esse capital político para as eleições municipais. Estamos vendo a antipolítica, que deu muito certo em 2018, sendo enfraquecida agora. Muitos candidatos do centro e da centro-direita pontuando bem, mas praticamente todos desvinculados do voto bolsonarista”, complementa.

Além disso, grande parte dos nomes que Bolsonaro decidiu apoiar publicamente não estão pontuando bem nas pesquisas. Para analistas políticos, essa pode ser uma sinalização ruim sobre o poder de transferência de votos do presidente e cobrar seu preço futuramente no parlamento.

2. Movimentações na esquerda
Desidratado nas últimas eleições municipais em meio ao impeachment de Dilma Rousseff, o PT enfrenta um aprofundamento de seu processo de isolamento na própria esquerda, destacando-se por muitas candidaturas não coligadas e dificuldades de selar alianças com siglas que não suas parceiras históricas. Nas capitais, o partido já vê a sombra de PDT, PSB e até mesmo o PSOL.

Ao mesmo tempo, PDT e PSB celebraram uma aproximação em municípios de maior porte em uma espécie de ensaio para uma aliança na corrida presidencial de 2022, com o plano de candidatura de Ciro Gomes. Em cidades com mais de 200 mil habitantes, os socialistas estão em 26% das candidaturas dos pedetistas. Já o PDT está em 37% das coligações do PSB.

“Dois fatores importantes aprofundaram o isolamento do PT: 1) o movimento de o partido sempre buscar o protagonismo em detrimento a outros partidos da esquerda; 2) a mudança das regras eleitorais. Todos os partidos queriam apresentar o máximo possível de candidatos para que eles puxassem votos para os vereadores”, observa Júnia Gama.

“Vimos o encontro de Ciro Gomes e Lula, os dois tentando uma aproximação… Mas por enquanto podemos ver como algo bastante pontual e voltado para o segundo turno. Ainda tem muita água para rolar para dizer se é algo que vai ter reflexos em termos de união da esquerda em 2022”, avalia.

3. Coalizão de “centro”
Alianças entre PSDB, DEM e MDB em colégios eleitorais estratégicos, como em São Paulo com a chapa formada por Bruno Covas e Ricardo Nunes, chamam atenção como possível sinalização para a construção de uma coalizão competitiva no plano nacional em 2022. O movimento, no entanto, ainda é prematuro e tem uma série de obstáculos para se consolidar.

“Acho que é muito cedo para olhar isso como exatamente o que vai acontecer em 2022. O fato de o MDB ter apoiado Bruno Covas não necessariamente indica que eles vão estar juntos em 2022, ainda que essa união e o Rodrigo Maia ter vindo para participar deste acordo também indica um caminho possível de construção”, diz Paulo Gama, analista político da XP Investimentos.

“Quando conversamos no Congresso, não está muito claro para ninguém qual vai ser o caminho a ser seguido. Todos partilham da tese de que, quanto mais unida estiver essa candidatura de centro, melhor vai ser para enfrentar Bolsonaro, mas não me parece ter grande clareza de qual é o nome. Tem o nome de Doria que desponta, mas escutamos ressalvas até dentro do PSDB”, pontua.

O especialista lembra, ainda, conversas dentro do DEM para uma aliança com Ciro Gomes durante as eleições de 2018 – o movimento não se confirmou, mas voltou a ser considerado depois do arranjo em torno da candidatura de Bruno Reis (DEM) para a prefeitura de Salvador (BA) com apoio dos pedetistas.

“Evidentemente tem gente que está aliada a Bolsonaro agora e que torce pela permanência dele, mas os caciques que se opõem a ele estão tentando ainda sondar e medir espaço para tentar alguma aliança, uma espécie de união do centro democrático, como se tentou em 2018. São passos iniciais nessa direção, mas ainda com muitas alternativas colocadas à mesa”, complementa.

4. Formação de bancadas
O resultado das eleições municipais também pode ter impacto sobre o desempenho dos partidos nas eleições legislativas em 2022. Como se sabe, prefeitos ajudam em campanha de aliados para o parlamento e vice-versa, em um ciclo que de alianças que se reforça de dois em dois anos e com a própria destinação de recursos de emendas no exercício da atividade legislativa.

“Encontramos uma relação muito forte entre o número de prefeitos e vereadores eleitos nas cidades e o número de deputados que cada partido consegue eleger depois. Claro que há imperfeições, mas existe uma correlação bastante alta entre as duas coisas. Então, se o presidente não conseguir fazer uma ‘base’ de prefeitos e vereadores [é importante observar] o quanto isso pode afetar, daqui a dois anos, a eleição”, diz Victor Scalet, também do time de análise política da XP Investimentos.

O assunto foi abordado na edição desta semana do podcast Frequência Política. Você pode ouvir a íntegra pelo SpotifySpreakeriTunesGoogle Podcasts e Castbox ou baixar o episódio clicando aqui.

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