O papel de Bolsonaro nas eleições municipais e como a disputa nas capitais afeta o presidente



SÃO PAULO – Pela primeira vez desde a redemocratização do país, o presidente em exercício durante as eleições municipais não está filiado a nenhum partido político.

Fora do PSL, sigla que o levou ao comando do país, e sem conseguir tirar o Aliança pelo Brasil do papel, o presidente Jair Bolsonaro tem tido menor participação do que antecessores na corrida pelas prefeituras ‒ o que não o blinda de possíveis consequências do processo.

O retrospecto das últimas eleições municipais mostra que normalmente a disputa representa uma boa oportunidade de crescimento e espraiamento ao partido do presidente em exercício. Foi assim com Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1996 e com Lula (PT) em 2004.

Desta vez, não haverá um partido único com chances de repetir o movimento embalado na figura do presidente Jair Bolsonaro e em suas bandeiras tradicionais.

Este foi um dos assuntos do podcast Frequência Política. programa é uma parceria entre o InfoMoney e a XP Investimentos. Ouça a íntegra pelo player acima.

Aliás, o que se tem observado é que boa parte dos candidatos apoiados pelo mandatário ou que tentam se associar à sua imagem não têm registrado desempenho satisfatório nas pesquisas eleitorais.

O que se observou do pleito geral de 2018, quando a figura de Bolsonaro ajudou na vitória de uma série de nomes para a Câmara dos Deputados, o Senado Federal e governos estaduais país afora não tem dado indicações de que se repetirá.

Para Paulo Gama, analista político da XP Investimentos, a ausência de um partido oficial do presidente na disputa dificulta interpretações sobre o desempenho de aliados do mandatário e sua representatividade nos municípios.

Por outro lado, o especialista argumenta que a situação também evitou maiores dores de cabeça a Bolsonaro, que não teve que fazer costuras mais complexas envolvendo sua nova base aliada ‒ o que normalmente provoca desgastes aos presidentes em pleitos municipais.

“Isso permite a Bolsonaro olhar o mapa, escolher dois ou três candidatos que ele achava que tinham chance ou lugares em que ele via necessidade de ter uma atuação mais presente – como é o caso de São Paulo, quando viu um dos principais rivais em 2022, o governador João Doria (PSDB), se armando”, observa.

“Ele conseguiu pinçar uma cidade ou outra em que achava que teria alguma vantagem participando. Nem isso está dando muito certo, mas foi uma maneira de fugir da planilha que mostraria onde ele ganhou ou perdeu. Fora outros problemas. Com a bancada do PSL, ele não teria controle sobre as candidaturas em todos os municípios do país. Qualquer caso de desvio ou bate-cabeça em relação a programa ia sobrar para a conta dele”, complementa.

Bolsonaro tem evitado engajar-se em campanhas municipais, mas já indicou apoio a candidatos como o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) em São Paulo (SP), Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio de Janeiro (RJ), Bruno Engler (PRTB), em Belo Horizonte (MG), e Coronel Menezes (Patriota) em Manaus (AM).

Nenhum dos quatro lidera as pesquisas em seus municípios. Crivella chegou a ocupar a primeira posição no início da corrida paulistana, mas perdeu terreno e agora se vê ameaçado disputando com Guilherme Boulos (PSOL) e Márcio França (PSB) uma vaga no segundo turno contra o atual prefeito Bruno Covas (PSDB).

Já Crivella tem a metade das intenções de voto do candidato Eduardo Paes (DEM), que lidera as pesquisas, e está tecnicamente empatado com a candidata Martha Rocha (PDT). Bruno Engler tem apenas 4% nas pesquisas em BH, contra 65% do candidato à reeleição Alexandre Kalil (PSD). E Coronel Menezes tem apenas 6%, segundo levantamento feito pelo Ibope.

Bolsonaro também manifestou apoio a Capitão Wagner (Pros) em Fortaleza (CE). O candidato, que chegou a liderar as pesquisas na capital cearense agora está a 2 pontos percentuais de Sarto (PDT), nome apoiado pelo ex-governador Ciro Gomes – situação de empate técnico –, evita associar-se à imagem do presidente e se diz independente.

Pesquisa CNT/MDA, realizada entre os dias 21 e 24 de outubro, mostra que 44,8% dos entrevistados dizem que o apoio de Bolsonaro não influencia na decisão do voto para as eleições municipais. Para, 23,2% a posição do mandatário atrapalha, enquanto 29,5% dizem que ajuda.

“Muito se fala que eleições municipais são eleições para síndico, que têm uma lógica muito específica e localizada. Mas, no final das contas, podemos projetar isso para algo mais amplo. Um candidato à presidência precisa ter palanques fortes, principalmente em capitais importantes. Estamos vendo acontecer o contrário com Bolsonaro nessas eleições municipais”, avalia Júnia Gama, da XP Política.

“Em 2018, ele foi o mais votado em cerca de 20 capitais e agora não consegue trazer esse capital político para as eleições municipais. Estamos vendo a antipolítica, que deu muito certo em 2018, sendo enfraquecida agora. Muitos candidatos do centro e da centro-direita pontuando bem, mas praticamente todos desvinculados do voto bolsonarista”, complementa.

Outro ponto a ser monitorado seria o impacto das dificuldades de transferência de votos de Bolsonaro a candidatos nas eleições municipais sobre o endosso ao seu governo no parlamento. O analista político Thomas Traumann acredita que eventuais derrotas de Crivella e Russomanno devem cair na conta do presidente, que transmitirá a imagem de que é capaz de manter sua blindagem, mas não de garantir o êxito de aliados.

“Para as dezenas de deputados do Centrão, isso é uma péssima notícia. De que adianta apoiar um governo que não lhes garante a reeleição? O resultado é que para apoiar o governo no Congresso o Centrão cobrará mais verbas e cargos”, escreveu em relatório recente.

Além de indicarem o comportamento dos eleitores nos municípios e poderem influenciar no jogo de alianças e palanques para o pleito presidencial, as eleições municipais também podem ter impacto sobre a composição da Câmara dos Deputados dois anos depois.

“Encontramos uma relação muito forte entre o número de prefeitos e vereadores eleitos nas cidades e o número de deputados que cada partido consegue eleger depois. Claro que há imperfeições, mas existe uma correlação bastante alta entre as duas coisas. Então, se o presidente não conseguir fazer uma ‘base’ de prefeitos e vereadores [é importante observar] o quanto isso pode afetar, daqui a dois anos, a eleição”, diz Victor Scalet, também do time de análise política da XP Investimentos.

O assunto foi abordado na edição desta semana do podcast Frequência Política. Você pode ouvir a íntegra pelo SpotifySpreakeriTunesGoogle Podcasts e Castbox ou baixar o episódio clicando aqui.

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