“Vejo a polarização como o mundo que ‘ensurdeceu’ para o outro”, afirma Cármen Lúcia

A realidade “tristemente verdadeira” de um país polarizado faz com que o cidadão, ao se negar a ouvir o outro, “se feche como ser humano”. Para a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), quando o antagonismo de opiniões extrapola o razoável, caminha-se não apenas para o despertar de uma crise política ou democrática, mas também humanitária.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, em parceria com a Brazilian Student Association (BRASA) – associação formada por brasileiros que estudam no exterior –, a magistrada se mostra preocupada com “tudo o que seja porta fechada”.

“O que me parece, agora, é que estamos em um momento de ‘surdez’, em que a pessoa se acha tão imbuída de certezas, em um mundo de tantas incertezas – o que é, por si, algo extremamente paradoxal –, que não precisa nem ouvir o outro até para ter certeza do que pensa. Então, em primeiro lugar, vejo essa polarização como um mundo que ‘ensurdeceu’ para o outro”, afirma a ministra.

“Não acho, lamentavelmente – espero estar errada –, que quando perdemos um sentido, aguçamos necessariamente todos os outros. Às vezes, você não ouve o outro porque nem o vê, achando-se o bastante”, complementa.

Na avaliação da ministra, o “aguçamento que se deu entre tendências opostas se tornou patente” no País. “São mesmo tempos difíceis – e difíceis, inclusive, por causa da pandemia, da questão econômica e porque temos este aguçamento de ânimos contrários acirrados e, muitas vezes, virulentos”, destaca.

Justiça
Em tempos em que o Judiciário assumiu um protagonismo na sociedade brasileira, Cármen Lúcia diz que cada juiz deve ter ciência de que o que faz tem consequências na vida das pessoas. Ela também frisa como deve ser o comportamento de qualquer magistrado. “Ou é imparcial ou não é Judiciário, simples assim. Ninguém cogita [haver] um juiz parcial.”

A ministra também enfatiza a obrigação da Suprema Corte, da qual ocupou o cargo de presidente entre 2016 e 2018, com a nação. “A Constituição sobreviverá com juízes que vão guardar, respeitar e fazer com que ela prevaleça. E acho que o papel do Supremo Tribunal Federal é sinalizar para os 18 mil juízes brasileiros que nós temos deveres com a República e, principalmente, com os cidadãos”, salienta.

Ademais, segundo a magistrada, “não é mais tempo de reforma, é tempo de transformação”, porque a pandemia de coronavírus reforçou a necessidade de todos se comprometerem com o bem-estar do próximo. “Chamar dentro de cada um de nós a responsabilidade com o outro é uma das lições que devemos aprender”, indica a ministra.

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