Conservador, pouco diversificado e com baixa liquidez: um retrato do patrimônio dos candidatos das eleições de 2020

Paper house under a magnifying lens

SÃO PAULO – Se os políticos são um retrato da sociedade que representam, é fundamental analisar a maneira como pensam, agem e se organizam. E para além do universo político, é possível também formar uma opinião sobre as pessoas observando sua disciplina com relação a um quesito fundamental a qualquer cidadão: suas finanças.

Com um perfil conservador, mal diversificado e concentrado especialmente em ativos com baixa liquidez, os candidatos às eleições municipais de 2020 estão muito mais próximos do investidor brasileiro padrão do que o desejado.

Um levantamento feito pelo InfoMoney com base em informações enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que os pouco mais de 1 milhão de candidatos a cargos de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores têm juntos um patrimônio total da ordem de R$ 120 bilhões.

Do total, a maior parcela está aplicada em imóveis. Apartamentos e casas respondem por 34,5% dos bens, enquanto outros ativos vinculados ao segmento, como terrenos, galpões, prédios residenciais e comerciais, representam 32,4% do patrimônio.

Os veículos também estão nas preferências. Os terrestres, isto é, automóveis, caminhões e motos, totalizam cerca de 9% dos bens declarados.

E uma parte relevante da soma ainda é representada por participações em empresas, com 5,4%.

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Embora o brasileiro ande mais entusiasmado com ativos de maior risco diante da taxa básica de juros no menor nível histórico, a fatia dedicada à Bolsa segue pouco expressiva também no mundo político.

Aplicações em ações diretamente ou via fundos de investimentos respondem por meros 2,85% do patrimônio total declarado. Investimentos financeiros em geral, o que inclui renda fixa, fundos imobiliários e ouro, não chegam a ultrapassar, juntos, os 5%.

Produto ao qual o brasileiro ainda hoje é tão apegado, a caderneta de poupança também tem sua cota entre os candidatos, com 0,93% dos bens declarados. Um deles, de Santo Antônio da Platina, no Paraná, diz ter R$ 149,3 milhões em uma conta poupança. E cerca de 22,6 mil pessoas da amostra têm pelo menos R$ 1 mil na caderneta.

Os dados ainda mostram que não serão os investimentos financeiros que vão garantir o futuro dos candidatos, já que só 0,30% deles têm planos de previdência privada do tipo VGBL.

Muita política, poucas finanças

William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGVcef), destaca quatro aspectos ao analisar os bens dos candidatos. O primeiro diz respeito ao conservadorismo, já que a maioria concentra o patrimônio em imóveis.

O segundo trata da imobilidade dos bens “Nem 5% do patrimônio estão em investimentos financeiros, quer dizer, não tem liquidez.”

O terceiro ponto se refere à ausência de aplicações em risco, com exposição residual a ações. E, por fim, o professor ressalta a falta de diversificação internacional das carteiras, a exemplo do que ocorre com brasileiros de maneira geral, bastante apegados ao mercado doméstico.

“No meu entender, os dados mostram que os candidatos sabem pouco sobre finanças e investimentos e são altamente concentrados em imóveis”, diz Eid Júnior.

Ele ressalta, contudo, que é importante ter em mente que os valores declarados de imóveis e empresas, por exemplo, são históricos e podem não refletir os preços atuais dos ativos. “Há distorções, mas, mesmo com elas, os dados mostram que todo mundo gosta de tijolo.”

Dinheiro embaixo do colchão

Nas eleições presidenciais de 2014, os dados da então candidata à reeleição Dilma Rousseff, do PT, repercutiram, com o registro de aproximadamente R$ 150 mil guardados em casa. Na ocasião, a ex-presidente disse que a decisão era reflexo dos tempos de militância política.

Desde então, boa parte dos candidatos ainda tem como hábito guardar dinheiro “embaixo do colchão”. Um total aproximado de R$ 1,5 bilhão, ou 1,3% do patrimônio total dos atuais concorrentes, foi relacionado a dinheiro em espécie, seja em moeda nacional ou estrangeira.

O maior valor, de nada menos que R$ 162,3 milhões, foi reportado por um candidato de Comodoro, cidade do Mato Grosso que tem por volta de 20 mil habitantes.

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Diante das informações apresentadas, que conselhos Eid Júnior daria aos candidatos?

Apenas com esse retrato, diz o professor, é perceptível a concentração excessiva de dinheiro em imóveis, além de veículos, ativos que não deveriam ultrapassar 5% do patrimônio de qualquer pessoa, observa.

“Eu os aconselharia a diversificarem um pouco mais a carteira, buscarem ativos com maior liquidez, para que representem cerca de 30% a 40% do patrimônio”, afirma Eid Júnior.

Lupa nas grandes capitais

Entre os destaques das grandes capitais, no Rio de Janeiro, Eduardo Paes, candidato à prefeitura pelo DEM que lidera a disputa nas pesquisas, destoa da amostra, com 44% do patrimônio declarado aplicado em um CDB e 37%, em um plano de previdência.

Na trajetória oposta, Marcelo Crivella, atual prefeito e candidato à reeleição pelo Republicanos, informou ter 95% dos recursos em um único apartamento.

Em Salvador, na Bahia, Bruno Reis (DEM), que lidera as intenções de votos segundo pesquisas, tem a maior parte do patrimônio declarado (66%) em um plano de previdência da Albaprev, da Assembleia Legislativa da Bahia.

Em Manaus (AM), o ex-governador Amazonino Mendes (Podemos), que está à frente nas pesquisas, tem um patrimônio total de R$ 4,7 milhões, dos quais 15% depositados em uma caderneta de poupança, 14,6%, em veículos, e quase 10%, em lanchas.

Já na região Sul, em Porto Alegre (RS), Manuela D’Ávila (PCdoB) lidera as intenções de voto. A candidata também chama atenção pela grande concentração de recursos em caderneta de poupança: eles respondem por 44% dos R$ 455,5 mil declarados.

Por fim, no Centro-Oeste, Maguito Vilela, do MDB, é um dos líderes nas pesquisas de intenção de voto à prefeitura de Goiânia. Quase 70% de seu patrimônio, de R$ 2,7 milhões, se refere a terras nuas.

Vanderlan Cardoso, do PSD, também à frente na disputa, declarou ter R$ 14,7 milhões, sendo uma parcela de 21% aplicada apenas em um fundo do tipo DI do Banco do Brasil e cerca de 14%, em previdência privada.

Os dados utilizados para o levantamento foram extraídos do site do TSE e datam do dia 2 de novembro. As informações são fornecidas pelos próprios candidatos e, portanto, há possibilidade de defasagem nos valores dos ativos e imprecisão no preenchimento.

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