Vale dos Vinhedos paranaense começa a ganhar forma

Webconferência debateu os desafios do Revitis, programa que visa fazer com que o estado volte a ser destaque na vitivinicultura

No Paraná, a produção de uva está disseminada na maior parte das regiões, mas tanto a área quanto o volume vêm reduzindo nos últimos anos

O Paraná se prepara para voltar a ser destaque na vitivinicultura. Esse foi o tema debatido por representantes do setor durante uma webconferência que foi acompanhada pelo Cepas & Cifras nesta desta quinta-feira (29). O evento faz parte das ações do programa Revitis [Programa Revitalização da Viticultura Paranaense], lançado em novembro de 2019 para revigorar a produção de uvas e seus derivados por meio do fomento à produção, agroindústria, pesquisa, comércio e turismo. Na ocasião do lançamento, no ano passado, Norberto Ortigara, secretário da Agricultura e do Abastecimento, sinalizou as inspirações do projeto paranaense. “Temos conhecimento, clima, solo e produtores. Por que não espelhar o Chile, a Argentina, a França, a Itália, a Espanha e o Vale dos Vinhedos gaúcho?”, questionou.

Neste novo ciclo, o Revitis inicia a capacitação de técnicos e produtores – que deve envolver também parcerias com o Senar e universidades, e vai promover uma série de eventos on-line. O diretor-presidente do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná Iapar-Emater (IDR-Paraná), Natalino Avance de Souza, afirmou que há preocupação com a redução da área e da produção de uva nos últimos anos e o governo deseja reverter esse quadro. “O programa representa a criação de oportunidades no campo, para devolver ao Paraná a sua competência nessa área, fazer essa curva voltar a ser ascendente. Queremos que os produtores saibam que o Estado está com eles nesse momento de retomada”, prometeu. Ele também antecipou que a Paraná Turismo deve lançar ainda neste ano um programa de turismo industrial, onde as vinícolas devem ser inseridas. “O turista que visita Curitiba poderá visitar indústrias que apresentem essa condição, como algumas que têm passarelas que passam por cima da linha de produção. Pretendemos incluir vinícolas também nesse passeio, desde que tenham condições de recepcionarem essas pessoas”, destacou. Durante a webconferência o Vale dos Vinhedos, assim como fez Ortigara no ano passado, foi citado como referência tanto para a produção, como para o enoturismo.

Segundo o coordenador do Revitis no Estado, Ronei Luiz Andretta, além das 43 unidades de referência que serão instaladas, está previsto para 2021 o desenvolvimento de 40 projetos de fomento. Por essa razão ja está disponível no site da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) um espaço para cadastro de produtores e outros profissionais do setor. “O objetivo é formar uma rede de comunicação e divulgar capacitações, eventos, dias de campo, resultados de pesquisa e informações de mercado”, informou Andretta.

O ano de 2020 está sendo decisivo para os produtores. Durante a pandemia do novo coronavírus, que paralisou os setores de eventos, bares e restaurantes, o Brasil registrou aumento no consumo de vinho. De janeiro a agosto, foram comercializados 313,3 milhões de litros, 37% a mais que no mesmo período do ano passado, segundo levantamento do Ideal Consulting. Em virtude da alta do dólar, a expectativa é que haja valorização do produto nacional em detrimento do vinho de países como Chile, Argentina e Portugal. “O desafio para técnicos, produtores e gestão pública é fidelizar esse novo consumidor, que refinou o paladar e passará a cobrar mais qualidade”, evidenciou Paulo Andrade, engenheiro agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral).

No Paraná, a produção de uva está disseminada na maior parte das regiões, mas tanto a área quanto o volume vêm reduzindo nos últimos anos. Atualmente, o estado tem 3.584 hectares destinados à cultura, que somam uma produção de 53,1 mil toneladas, segundo dados do Deral. O município de Marialva, que já chegou a ter 1,6 mil hectares, hoje lidera o ranking estadual com uma área de 473 hectares (13% do total) e produção de 11,7 mil toneladas. Outros destaques são Rosário do Ivaí, Mallet, Cerro Azul e Bandeirantes. O Revitis tem como embasamento técnico estudos recentes da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves (RS), que incluíram o Paraná como local de clima indicado para a viticultura. A partir da classificação climática, as características dos planaltos de Curitiba e de Guarapuava foram considerados semelhantes aos da Serra Gaúcha e da Serra do Sudeste, também no Rio Grande do Sul, onde a produção já se consolidou e obteve reconhecimento internacional. Essas regiões no Paraná com características de clima úmido, temperado quente e com noites amenas guardam semelhanças com regiões produtoras do Uruguai, Espanha (Galícia) e Itália (regiões de Modena e do Vêneto).

O produtor José Zanchetta, da Cantina Zanchetta, em São José dos Pinhais, espera que o Paraná seja referência no setor. “Nós, que trabalhamos com o turismo, vemos com bons olhos essa oportunidade para os pequenos produtores receberem assistência”, afirmou. O agricultor Vanderlei Marcos Reina, de Jesuítas, tem trocado cada vez mais a olericultura pela fruticultura em busca de maior rentabilidade. “Pretendo reduzir a área de hortas e aumentar a de uvas. Assim, meu filho, que é engenheiro agrônomo, poderá ficar na propriedade e melhorar a produção”, conta.

José Luiz Marcon Filho, enólogo da Vinícola Legado, que fica na região metropolitana de Curitiba, defendeu que os produtores de uvas possam ter a garantia de preços melhores. “O projeto não precisa garantir preço, basta que dê subsídios. Conheço um bom agricultor, muito experiente em negociação, que conseguiu vender a R$ 3, R$ 3,50, mas outro não passou de R$ 1,60. Por essa razão uma rede de cadastro como teremos com o Revitis será excelente”, declarou o também agrônomo nascido em Santa Catarina, mas que adotou o Paraná para exercer suas profissões. O programa do governo do estado prevê a criação de uma câmara técnica de mediação onde a indústria terá contato direto com os produtores para análise de questões como essas.

Giorgeo Zanlorenzi, presidente da Associação de Viticultores do Paraná (Vinopar), fez um panorama do setor atualmente. “Estamos vivendo o melhor cenário em nossos 23 anos de existência. O vinho foi adotado pelos consumidores na pandemia e tem vinícola que zerou seus estoques visto tamanha procura. Algumas terão dificuldade de atender o mercado no final do ano, inclusive”, revelou. O empresário acredita que o atual mercado se manterá no futuro, graças aos jovens que passaram a degustar a bebida. De acordo com ele, a Famiglia Zanlorenzi já tem uma vinícola parceira em Bituruna e também está visitando outras propriedades paranaenses para absorver a produção. “Alguns entregavam uva em Santa Catarina e nós mesmos trazemos muito do Rio Grande do Sul, mas queremos cada vez mais buscar abastecimento no Paraná. O estado será reconhecido, dentro de alguns anos, como aquele que teve maior crescimento da produção em todo o Brasil”, projetou o presidente da Vinopar, entidade fundada em 2017 e que conta com a participação de doze vinícolas associadas.