“Quando empresas ou governos prometem fazer algo pelo clima até 2050, que vergonha”, diz Michael Bloomberg

Michael Bloomberg

SÃO PAULO – No mercado financeiro, falar sobre Michael Bloomberg, empresário americano e ex-prefeito de Nova York, remete ao tradicional terminal de informações e a empresa que fundou, batizados com seu sobrenome. Em outros ambientes, no entanto, ele é conhecido por razões distintas – como sua dedicação às discussões sobre a mudança climática.

Reconduzido em fevereiro ao posto de enviado especial da ONU (Organização das Nações Unidas) para Ambições e Soluções Climáticas – cargo que ocupou pela primeira vez em 2014 e do qual se afastou em 2020 para disputar a vaga do Partido Democrata nas eleições presidenciais americanas – Bloomberg participou do painel “Os desafios do mercado, das cidades e do clima” nesta terça-feira (24), na 11ª edição da Expert XP. Realizado todos os anos pela XP, o evento é considerado um dos maiores festivais de investimentos do mundo.

“Espero que não seja uma moda passageira”, respondeu Bloomberg a Alberto Bernal, estrategista global da XP que o entrevistou durante o painel, sobre a intensificação do movimento ESG, que se foca sobre as práticas ambientais, sociais e de governança (environment, social, governance) adotadas pelas empresas. “Precisamos de ações substantivas que realmente mudem as coisas, e isso só acontecerá se você fizer algo que inclua todo mundo”.

Aquecimento global

O aquecimento global é um dos temas enfatizados por Bloomberg. No painel, o empresário lembrou que os efeitos do aumento da temperatura no planeta começam a aparecer na forma de eventos climáticos extremos – como as recentes enchentes na Alemanha, os incêndios na Grécia e na Califórnia, nos EUA, e a falta de água em muitos outros cantos, inclusive no Brasil.

“As coisas estão piores hoje do que jamais estiveram antes. Não há dúvida sobre isso, a ciência está aí”, disse. Na sua visão, a recomendação de que seria preciso fazer algo para mudar o cenário até 2050 está desatualizada, já que muito do que se previa para um futuro distante parece estar sendo antecipado. “Ninguém em um cargo na política hoje estará nele em 2050. De fato, três quartos ou mais das pessoas vivas hoje não estarão vivas em 2050”, disse.

Quando as companhias prometem fazer algo até 2050, ou quando um governo promete, que vergonha. Não deveríamos permitir que eles escapem impunes, isso é ridículo.

(Michael Bloomberg)

Sobre possíveis soluções inovadoras para o problema do clima, Bloomberg ressaltou que muitas delas – como a geoengenharia, a captura de carbono ou as novas formas de fusão para gerar energia –, embora estejam sendo desenvolvidas, ainda demandarão anos para serem implementadas em escala comercial. Mas há o que fazer de imediato.

Uma de suas investidas é sobre as usinas de geração de energia a partir de carvão. Por meio de sua fundação, a Bloomberg Philanthropies, o empresário lançou uma campanha em 2011 com o objetivo de fechar pelo menos um terço das plantas movidas a carvão nos Estados Unidos. Mais da metade delas tinham encerrado atividades até 2019, quando, com uma nova doação de US$ 500 milhões, Bloomberg assumiu a meta de fechar as restantes até 2030.

“Essa é a boa notícia. A má notícia é que na China estão construindo mais novas usinas”, disse. Também não há esforços para barrar vazamentos de metano de minas antigas. “Na Índia, estão falando sobre fabricar apenas carros elétricos. Isso soa ótimo para a pontuação ESG. O problema é que lá eles geram toda a eletricidade com carvão”. Se a gasolina não é uma maravilha, segundo Bloomberg, o carvão é ainda pior. É por conta da necessidade de estabelecer esforços coordenados, que não se anulem, que o empresário defende a ação conjunta dos líderes dos diferentes países.

Vida política

Dono de uma fortuna calculada em mais de US$ 60 bilhões, o empresário contou que decidiu se envolver com a política por ouvir as pessoas dizerem que não há solução para os problemas da sociedade, como a criminalidade, os baixos níveis educacionais, a vulnerabilidade social, entre outros. “Isso não é verdade. Acho que você pode resolver algumas dessas coisas. Há soluções para todos esses problemas, e geralmente a razão pela qual elas não são implementadas é a política”, afirmou.

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Bloomberg, que foi prefeito de Nova York por 12 anos, disse que costuma ouvir das pessoas que fez muito pela cidade em seu terceiro mandato – uma visão que refuta. “A maioria das coisas que entregamos no terceiro mandato foram começadas no primeiro ou segundo”, ressaltou.

Em temas como o investimento em infraestrutura esse efeito é ainda mais evidente, ressaltou o empresário. Só o tempo necessário para lidar com os desafios legais da construção de uma ferrovia de alta velocidade, por exemplo, pode somar uma década. Por isso, mesmo que muito dinheiro seja destinado para a área, segundo Bloomberg, é provável que boa parte seja gasta com projetos de que a sociedade realmente não precisa, e não em um grande projeto de longo prazo.

“As autoridades eleitas que votarem por um projeto de longo prazo recebem todo o pesar das pessoas que não gostam do projeto e a irritação das pessoas que precisam pagar por ele, e nem vão ser convidadas para cortar a fita quando for entregue”, disse. “E quem quer que seja o prefeito ou o presidente então, certamente não vai querer dividir o crédito com alguém que nunca conheceu antes”.

A polarização da sociedade e da política também tem chamado a atenção do empresário, para quem o pano de fundo está no crescimento das mídias sociais. “Toda a rede das mídias sociais é construída sobre a habilidade de saber o que você quer e de alimentá-lo com conteúdo sobre isso, porque então elas podem vender mais produtos a você”, disse. A lógica serve para quem pesquisa sobre produtos para bebê, sobre beisebol como esporte e também sobre a política de esquerda ou de direita.

“Não é necessariamente ruim, você pode gostar disso. Mas essa é a diferença fundamental entre a nossa sociedade hoje e a de 20 ou 30 anos atrás. É minha explicação de porque tudo está tão polarizado em todos os países latinos, e certamente também nos EUA”, afirmou. Para encontrar uma solução, na visão de Bloomberg, é preciso que haja líderes capazes de agrupar, e não polarizar. “É difícil achá-los e é difícil elegê-los, mas defendo que eles existem, e temos uma história no mundo de quem consegue unir as pessoas”.

Como conselho aos políticos brasileiros, Bloomberg sugeriu: “Digam a verdade. Melhor cair nas chamas por ter feito a coisa certa do que manter o seu trabalho e ser um hipócrita”. O empresário lembrou que um ano após ter sido eleito pela primeira vez para a prefeitura de Nova York ele implementou um significativo aumento de impostos. “Estávamos perdendo policiais, bombeiros, professores, enfermeiros porque não podíamos pagá-los. Se vocês querem ter as ruas limpas e seguras, ser saudáveis, ter crianças com educação, o dinheiro tem de vir de algum lugar”. Apesar da medida, impopular num primeiro momento, acabou sendo reeleito mais duas vezes.