3ª dose da vacina: é a hora de proteção extra ou a estratégia de imunização é equivocada?

SÃO PAULO – Cerca de um ano e meio depois do início da pandemia, houve avanços, mas os motivos para alívio são poucos: no mundo são mais de 209,4 milhões de casos confirmados e mais de 4,39 milhões de mortes, de acordo com os dados compilados de março de 2020 até quarta-feira (18) pela Universidade John Hopkins, nos EUA.

No Brasil, desde o início da pandemia também são mais de 20,4 milhões de casos confirmados e quase 573 mil mortes.

Dados entre 9 de 15 de agosto mostram que são mais de 67 mil mortes ao redor do mundo – cerca de 1,5% a mais do que o observado nos sete dias anteriores e pouco mais que o dobro do observado nesta mesma semana em 2020.

Enquanto isso, no Brasil há sinais de estabilidade: a média móvel de mortes nos últimos sete dias ficou em 813, a menor registrada desde o dia 7 de janeiro – quando foi 741. Em comparação à média de 14 dias atrás, a variação registra uma queda de 8%.  

Mas o ritmo de vacinação, que está acelerado apenas em algumas regiões do mundo, e as novas variantes do vírus, como a Delta, que é mais transmissível, são fatores importantes e que acendem o sinal amarelo para todos em um momento em que alguns países ensaiam retomadas e flexibilizações já começaram.

Em resposta, está em discussão a aplicação de uma terceira dose das vacinas ou dose de reforço. Porém, essa solução, que a princípio pode parecer fazer sentido, vem causando algumas controvérsias. Afinal, enquanto parte dos países querem aplicar uma terceira dose, outra fatia nem aplicou a primeira.

O InfoMoney contatou especialistas para entender se a aplicação da terceira dose agora faz sentido ou se pode ser uma atitude precipitada. Confira:

Proteção extra

Diante da atual situação, com a pandemia ainda avançando aplicar uma terceira dose é uma forma de garantir uma proteção extra aos cidadãos, principalmente contra a nova variante Delta, que é mais transmissível – pelo menos é o argumento de países que já afirmaram o interesse.

“É a melhor maneira de nos proteger de novas variantes que possam surgir. Isso nos deixará mais seguros e por mais tempo. Ajudará a acabar com essa pandemia mais rapidamente”, afirmou Joe Biden, presidente dos Estados Unido a repórteres na Casa Branca.

Por lá, as vacinas de reforço contra a Covid-19 serão amplamente disponibilizadas a partir de 20 de setembro, conforme anúncio feito pelas autoridades norte-americanas nesta quarta (18).

O Chile também se posicionou sobre o assunto e fechou acordos para terceiras doses de vacinas contra a Covid-19 da Sinovac e Pfizer. Segundo autoridades do governo, a ideia é garantir as doses, caso sejam necessárias nos próximos meses.

Ainda, sete milhões de doses da Coronavac e cinco milhões da Pfizer podem chegar até o fim deste ano, se as autoridades de saúde considerarem necessárias, afirmou Rodrigo Yáñez, subsecretário de Relações Econômicas Internacionais do Chile, em entrevista. O Chile já conta com quase 70% da sua população completamente imunizada.

No Uruguai, que também registra esse patamar de cerca de 70% da população vacinada com duas doses, também anunciou o início da aplicação da terceira dose para setembro e sob a justificativa de que é uma otimização contra o vírus. O país não quer recuar uma abertura das atividades e fronteiras, conforme afirmou a Academia Nacional de Ciências do Uruguai à Folha.

Em Israel, a aplicação de mais uma dose está autorizada para pessoas com mais de 50 anos e profissionais da saúde com a vacina da Pfizer na tentativa de conter uma nova onda do vírus. O país foi exemplo para o mundo todo após desenvolver uma campanha de vacinação bem-sucedidano fim 2020.

Cerca de 60% da população recebeu duas doses da vacina da Pfizer e como consequência os casos despencaram. Porém, a disseminação da nova variante Delta fez com que as novas infecções aumentassem consideravelmente em Israel.

O Brasil, por sua vez, avalia vacinar parte da população brasileira com uma terceira dose da vacina contra a Covid-19, segundo Rosana Melo, secretária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde.

Ela analisou que a experiência norte-americana – motivada pelo avanço da variante Delta do vírus e pelo relaxamento de medidas sanitárias – de mais uma dose, deverá ser acompanhada pelo Brasil.

Por aqui, a ideia é começar por pessoas com sistema imunológico mais frágil como transplantados, portadores do vírus HIV e de pacientes com câncer.

Marcelo Queiroga, atual ministro da Saúde, anunciou recentemente que a pasta vai realizar um estudo em parceria com a Universidade de Oxford para analisar a necessidade de uma dose de reforço para quem já tomou as duas doses da Coronavac, utilizando as vacinas disponíveis no Brasil.

Trata-se de avaliação encomendada pelo ministério, sob liderança da pesquisadora Sue Ann Costa Clemens, da Universidade de Oxford.

Ainda, alguns estados já se posicionaram sobre o assunto também: o Rio de Janeiro, por exemplo, vai testar a dose extra em idosos da Ilha de Paquetá, como parte do estudo PaqueTá Vacinada.

O Mato Grosso do Sul já pediu ao Ministério da Saúde autorização para aplicar uma dose de reforço em 350 mil pessoas do estado, que possuem mais de 60 anos, segundo afirmou Geraldo Resende, secretário de saúde do estado ao O Globo.

Estratégia equivocada?

De um lado, o objetivo da terceira dose é trazer mais proteção contra o vírus. Mas especialistas defendem que aplicar uma terceira dose agora pode não ser a estratégia mais eficaz de combate à pandemia.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), fez uma pedido nesta quarta (18) para que os países adiem a aplicação da terceira dose de vacinas contra a Covid-19 para que os insumos possam chegar a países onde nem mesmo os profissionais de saúde e as populações de risco foram imunizados ainda.

Segundo ele, apenas dez países alcançaram cobertura vacinal de 75% contra a doença e a maior parte das nações de baixa renda sequer atingiu a marca de 2% da população imunizada.

“O que está claro é que é urgente aplicar a primeira dose e proteger os mais vulneráveis antes que as terceiras doses sejam distribuídas.”

A desigualdade na distribuição de vacinas é um fator chave. “A distância entre os que têm e os que não têm [acesso à vacina] só se tornará maior caso os fabricantes e líderes priorizem doses de reforço no lugar de fornecer o insumo a países de média e baixa renda”, disse.

Esforço global

“A máxima é: ninguém está salvo, até todo mundo estar salvo. Não adianta proteger uma região só. O combate à pandemia deveria ser feito globalmente. Se não, a probabilidade de surgirem novas variantes mais letais em locais não vacinados ou que receberam apenas a primeira dose aumenta”, explica Natalia Pasternak, diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência.

Alguns estudos com Pfizer e AstraZeneca estão sendo feitos para entender a necessidade da terceira dose. Em Israel, por exemplo, a HMO Maccabi, uma das provedoras de saúde do país, conduziu um estudo local que com 149 mil pessoas, comparando os resultados de um grupo de idosos que recebeu uma terceira dose com um grupo que tomou apenas duas doses. O resultado inicial é de que essa dose extra foi considerada 86% eficaz.

Marco Krieger, vice-presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), admitiu recentemente à CNN que existe a possibilidade de uma terceira dose da AstraZeneca, mas pensando em novas cepas do vírus, já que a versão atual do imunizante protege contra o vírus, inclusive a variante Delta. Há um estudo clínico, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em andamento.

Apesar das iniciativas em torno do assunto, o embasamento científico para terceira dose ainda é muito preliminar, segundo Natalia.

“Considero, portanto, que é mais urgente vacinar o maior número possível de pessoas com duas doses, do que dar terceira dose em grupos específicos, que ainda nem sabemos exatamente que benefício trará”, avalia.

Sobre a ideia de oferecer proteção extra para os grupos prioritários, Natalia ressalta que na verdade a melhor forma proteger esses grupos, que incluem, idosos, imunocomprometidos, entre outros, é vacinar em massa.

“É o que diminui a circulação do vírus. Ao garantir que todos estejam vacinados com duas doses, protege-se também os mais vulneráveis. É uma maneira de proteger o maior número de pessoas com uma única estratégia”, avalia.

Razões para aplicar a terceira dose

Luiz Almeida, microbiologista e coordenador do Instituto Questão de Ciência, afirma que uma terceira dose seria necessária em duas situações principais: se a memória imunológica do organismo estivesse decaindo muito rapidamente ou se estivéssemos lidando com novas variantes que as vacinas atualmente disponíveis não dessem conta.

“Porém, nenhuma dessas situações está acontecendo”, explica.

Segundo ele, os testes que vêm sendo feitos com pessoas vacinadas não mostram perda acelerada de anticorpos ou das células de memória do vírus, que ficam dormindo e acordam quando o vírus entra no organismo e ativam o sistema imunológico.

“Há um pico de anticorpos após a segunda dose, ou seja, momento em que há uma máxima imunização e há a tendência desses anticorpos diminuírem à medida que o sistema imunológico entende que a pessoa está saudável e não infectada. Assim, não há necessidade do corpo gastar energia com algo que não precisa se defender naquele momento. As células de memória estarão lá garantindo que, em caso de nova infecção, o vírus seja reconhecido e combatido”, diz Almeida.

Ainda, ele lembra que o calendário vacinal do Brasil conta com vacinas que precisam de reforço, como a do Tétano – cuja dose extra é aplicada a cada dez anos. “Vimos que depois desse período as células começam a esquecer o vírus, então, há a necessidade de reforço”.

Sobre as variantes: a mais preocupante agora, sem dúvidas é a Delta, conforme ressaltou Natalia.

“As variantes são eventos aleatórios. Os vírus sofrem mutações e geram novas variantes, que podem tão parecidas que nada mudam para o vírus, ou podem apresentar alguma vantagem de sobrevivência. Nesse caso, essas mutações são bem-sucedidas. A Delta é uma delas. Ela possui uma taxa de transmissibilidade mais alta, com a capacidade de entrar nas células de maneira facilitada, infectando mais pessoas”, explica.

Porém, todas as vacinas disponíveis hoje no Brasil conseguem combater essa variante, especialmente com as duas doses aplicadas. “A efetividade das vacinas em casos graves e mortes ainda é a mesma para a Delta”, diz Almeida. “Porém, com apenas uma dose, a variante pode ser mais agressiva diminuindo a eficácia das vacinas”.

De acordo com Queiroga, cerca de 7 milhões de pessoas estão inadimplentes com a segunda dose. “É muita gente, super preocupante. Precisamos entender porque essas pessoas não estão indo tomar a segunda dose: não é possível que todo mundo esqueceu. Falta de informação? Há muito medo? Falta uma busca ativa que vai atrás para vacinar? É um momento de cautela”, aponta Natalia.

Aplicar uma dose de reforço é ruim?

Diante do cenário fica a pergunta: alguns países já confirmaram que vão aplicar a terceira dose, mas há risco de efeito negativo? O consenso é de que não.

“Não, não há riscos extras mapeados – além dos efeitos adversos já conhecidos, como dor no local da aplicação, febre leve, dor de cabeça, entre outros. Mas ainda não sabemos os benefícios dessa dose”, explica Almeida.

Fernando Aith, professor da Faculdade de Saúde Púbica da USP, afirma que a discussão é menos sobre tomar a vacina e mais sobre a estratégia de imunização adotada. “Tomar a vacina é crucial para conter a pandemia. Se os estudos que estão em andamento pelas fabricantes das vacinas e instituições ao redor do mundo comprovarem a necessidade de uma dose de reforço, ótimo”, diz.

“Porém, como isso será aplicado: no Brasil há divergências na distribuição e aplicação das doses. Enquanto alguns estados estão vacinando adolescentes, como São Paulo, estados como o Piauí, ainda estão na faixa etária dos 25-30 anos. Então, a prioridade deveria ser completar essa etapa inicial de duas doses para o máximo possível de pessoas e depois focar na terceira dose. Mas faltou uma coordenação mais estruturada do PNI”, avalia Aith.

Vale lembrar que a vacina da gripe, por exemplo, tem necessidade de reforço anual. “É um vírus que tem uma taxa de mutação muito alta: essas transformações que o coronavírus sofreu em um ano e meio, o vírus da influenza sofre em cerca de três meses mais ou menos. Então, justifica aplicar vacina da gripe todo ano”, diz Almeida.

“Tudo é novo, precisamos esperar os estudos serem finalizados para entender melhor os próximos passos. Por enquanto, não temos respostas concretas”, finaliza.

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